domingo, 13 de junho de 2010

3 - Can’t forget the way you were with me…


Second Time Around

Por volta das 20 horas, eu estacionei meu carro do outro lado da rua deserta e fitei o prédio de seis andares em minha frente. Eu usava um vestido cinza curto preso nas coxas para dar um efeito balonê na peça e estava devidamente depilada pelo método brasileiro que Luiza me aplicou naquele final de tarde. Meu cabelo ainda tinha resquícios dos cachos selvagens da sessão de fotos, mas minha pele recebeu apenas um pouco de blush e lápis preto nos olhos para embelezá-la. Ao se tratar de encontros com o Jackson, eu tentava ser o mais casual possível depois de escutar de seus lábios que minha beleza natural era a única que o interessava e com essa lembrança eu finalmente entrei no prédio.

Após subir os andares de escada mesmo, apesar de usar um salto alto preto para deixar minha postura mais elegante, eu fitei o nº 302 na porta em minha frente e respirei fundo diversas vezes antes de tocar a campainha. A porta foi aberta quando eu abri os olhos e encontrei o que estava esperando; Jackson trajando calça jeans e uma blusa cinza meio surrada, o cabelo de laterais raspadas preso para trás no visual de Avatar que ele continuou adotando mesmo após o filme. Ele me deu um sorriso de satisfação e abriu espaço para que eu entrasse, beijando sua bochecha direita quando passei por ele.

- Você está linda. - ele comentou fechando a porta e eu olhei o apartamento ao redor.

Nada havia mudado desde a última vez que eu estive ali, pouco antes de nós terminamos. Os instrumentos musicais ainda ficavam perto da janela à minha esquerda e à direita estava a pequena sala onde as reuniões com os amigos aconteciam, mas ele segurou minha mão e me conduziu para a cozinha espaçosa que ficava na porta logo atrás de mim.

A garrafa de vinho já estava no balcão central com duas taças esperando para serem devidamente preenchidas pelo líquido desinibidor de qualquer ser humano tenso. Jackson ficou de um lado enquanto eu parava do outro, o observando me servir com a bebida, meu olhar sendo um mix de nervosismo e ansiedade.

- É o seu favorito. - ele disse empurrando a taça para mim.

- Obrigada por lembrar. - agradeci com um sorriso e segurando a taça.

- Como posso esquecer o motivador para tantas noites perfeitas, hein? - ele retrucou começando a me provocar, primeiramente com palavras para depois partir para atitudes.

Pura verdade, o vinho realmente tinha o poder de me transformar. Metade das coisas que nós fizemos no decorrer da relação não seria possível se eu não estivesse com pelo menos três taças daquele vinho espanhol bastante forte e Jackson sabia perfeitamente disso. Porventura, fosse sua intenção relembrar um passado não tão distante naquela noite e eu não estava na posição de lutar contra nada nem ninguém, principalmente contra ele.

Tomei mais um gole e o observei rindo enquanto balançava a cabeça negativamente, o que despertou minha curiosidade.

- Qual a piada? - perguntei rindo.

- Nenhum, só estava me recordando de uma dessas noites. - ele respondeu tomando um gole. - Uma bem diferente, para ser mais claro.

- Qual?

- Eu, você, Ashley e uma câmera filmadora em seu banheiro. Você lembra?

- Vagamente, acho que eu estava bêbada demais naquele dia.

- Então, você não lembra como você pediu para que eu filmasse você beijando a Ashley? - ele insistiu me lançando um olhar desafiador. - Nem quando vocês duas começaram a se tocar com má intenção?

Eu lembrava cada detalhe da noite que ele estava se referindo, mas escutar de sua voz a narração de cada detalhe que ocorreu entre as duas mulheres embevecidas por meia garrafa de vinho espanhol com algumas doses de tequila era completamente diferente. Quando ele mencionou o beijo que ocorreu entre Ashley e eu - uma loucura que eu tive na hora -, eu senti minha espinha dorsal se manifestar com um arrepio breve, principalmente com o jeito que ele umedeceu o lábio inferior e sorriu de canto; o verdadeiro sorriso torto de Edward Cullen, mas representado com perfeição por Jackson Rathbone.

- Como eu te disse, não lembro muita coisa. - finalmente respondi sua questão e tomei um gole para disfarçar a tensão em minha voz.

- Acho que é quase minha obrigação te relembrar cada detalhe. - Jackson comentou esquecendo de vez sua taça de vinho e caminhando para o outro lado da bancada, o meu lado.

Girei meu corpo e minhas costas encontraram a borda de mármore do balcão, meus olhos acompanhando atentamente os vinte passos - eu contei mentalmente, tinha essa mania quando estava nervosa - que ele deu até parar em minha frente e colocar uma mão em cada lado do meu corpo para se inclinar um pouco em minha direção.

- Você se importa se eu te relembrar? - ele perguntou em um sussurro que poderia ser classificado como matador e minhas pernas tremendo em cima do salto confirmaram meu pensamento.

- Acho que não... - respondi deglutindo e deixando meus braços caírem pendentes ao lado de meu corpo.

- Então, você realmente não se lembra como seus lábios atrevidos foram os primeiros a tocar a pele do decote da Ashley? Nem como suas mãos demonstraram interesse nas curvas dela?

- Não... - sussurrei admirando a maneira que seus lábios diziam as palavras “decote” e “mãos”. - O que mais aconteceu?

- Eu tive que assistir minha namorada despir a melhor amiga com tanta habilidade que eu até duvidei que ela nunca tivesse feito isso com outra mulher. - ele respondeu respirando longamente a cada pausa para continuar falando. - Melhor, eu tive que filmar vocês duas ficando apenas de calcinha, ajoelhadas no meio do banheiro enquanto se beijavam com tanto desejo que eu fiquei com bastante inveja.

- Desculpa, então... - disse como se o pedido de desculpas fosse resolver alguma coisa.

- Não precisa, gata. Eu realmente soube aproveitar os minutos que vocês gastaram se deliciando com o corpo da outra como se fossem expert no assunto. - Jackson disse mordendo o lábio inferior e soltando uma risada de prazer. - Para ser sincero, eu nunca me divertir visualmente como naquela noite...

Não era pra menos, qualquer homem teria o grande momento de sua vida ao presenciar duas mulheres transando completamente envolvidas pelo álcool no organismo e a curiosidade de tocar o corpo de outra mulher tão intimamente pela primeira vez. Não existiu vergonha alguma na maneira que meus lábios sugavam a pele de Ashley e no modo que suas mãos apertavam minha carne com o prazer que ambas causavam e sentiam. Estava tudo registrado naquele cd guardado em algum lugar daquele apartamento e eu temia que o vídeo caísse nas mãos de pessoas aproveitadoras e a minha carreira e a carreira de Ashley estivessem destruídas.

Quando eu voltei do meu devaneio, percebi que Jackson analisava minha face com bastante curiosidade e tinha um sorriso quase vitorioso, como se soubesse que eu estava recordando cada detalhe daquela noite e eu fosse ceder facilmente ao seu charme. Eu já havia cedido ao seu modo de sorrir e dizer as palavras no tom certo desde o momento que ele me convidou para passar em seu apartamento, mas não queria transparecer como ele ainda mexia com meu coração, minha mente, meu corpo, minha vida. Só Deus sabe como eu ainda estava sofrendo para superar tudo que aquele homem me causou e me desgastou com meses de relacionamento.

- No que você está pensando? - ele sussurrou segurando meu queixo e juntando as sobrancelhas em um olhar pensativo.

- Nada demais... - respondi balançando a cabeça e sorrindo de canto.

- Você sabe que esse seu sorriso de lado te deixa mais linda ainda? Como se você estivesse dominando o mundo com seus lábios retraídos para um canto da boca e com esse olhar poderoso...

- É apenas um sorriso qualquer. - falei lutando com as últimas forças em minha mente, mas ele estava avançando com sabedoria.

- Não... - Jackson disse em um sussurro que me obrigou a fechar os olhos e sentir sua boca migrando para meu ouvido esquerdo. - É como se dissesse “Eu sou Kristen Stewart e posso ter quem eu quiser”...

Jackson adorava me dar essa sensação de domínio da situação mesmo quando estava bastante claro que o dominador era ele e eu apenas uma vítima de seu charme indefectível. Ele gostava de sussurrar em meu ouvido frases de um submisso enquanto estava dentro de meu corpo e estava me levando à loucura com o modo único de me comer, gostava de me dizer que eu o tinha nas mãos quando quisesse só para a idiota aqui achar que estava por cima quando na verdade era um capacho em suas mãos.

Nossa relação sempre foi estranha, com a falsa sensação de perfeita que todos pensavam que fosse, mas sendo a pior possível entre quatro paredes, e era exatamente isso que ainda me prendia a ele; somente Jackson conseguia me fazer cometer erro atrás de erro na tentativa de salvá-lo e salvar o amor que eu sentia por ele, mas era burrice. Burrice desde o primeiro segundo que eu dediquei a arrancar minha roupa para transar por diversão com meu colega de elenco.

- Seja minha uma última vez, Kris. - ele me pediu com um desespero que poderia ser falso, mas que me abalou no segundo que eu codifiquei suas palavras. - É só isso que eu preciso...

- Isso é burrice... - retruquei com o último fio de esperança de ainda deixar aquele apartamento sem arrependimentos futuros e sem uma dor horrível na consciência.

- Burrice é ficar longe de quem você ama e de quem te causa coisas loucas. - ele disse afastando meu cabelo de minha orelha para poder respirar contra meu ouvido só porque aquilo me derretia. - E eu não quero ser mais burro...

Em um segundo eu estava de volta ao momento que nunca deveria passar porque era perfeito demais e nos pertencia. Eu estava novamente tendo contra os meus os lábios do homem que eu amava e sentia suas mãos segurarem meu rosto antes de descerem por meu pescoço em busca dos locais que ele jamais deveria parar de tocar. Viveria facilmente com as mãos de Jackson grudada em minhas formas corporais, pois seu toque era a única coisa que conseguia me relaxar e esquecer a vida me esperando quando deixasse a segurança das paredes ao nosso redor.

Lá fora as pessoas torciam por um deslize, fingiam interesse em minha dor, choram lágrimas falsas com alguma tragédia e sentia pena de pessoas sem privacidade como eu, como qualquer ator naquela cidade, mas se meus erros vendessem revistas, elas continuariam sendo vouyer no filme trágico-cômico que era minha vida; plástica, sem rumo, perdida pelas facilidades de estrelar um filme que deu alguns bilhões de dólares.

Sua saliva tinha gosto de vinho e me deixava bêbada com a mistura perfeita com a minha saliva cheia de saudade do interior de sua boca. Qualquer pessoa poderia beijar melhor do que o Jackson, mas o que eu sentia por ele transformava seus beijos e seu modo de me invadir com a língua na razão para eu estar viva ainda.

Eu dependia quimicamente de suas secreções, ficava perdida longe de seu corpo e de seu toque, mas não encontrava o rumo exato quando estava fundida a ele e sabia que ao acabar tudo estaria perdido. Precisava encontrar alguma forma de me livrar daquele homem que só me deixava mais viciada ainda e causava pesadelos reais em minha vida, mas eu não estava preparada para me desgarrar naquela noite.

Ele se afastou de meus lábios e eu resmunguei por não conseguir ficar longe dele por muito tempo, mas seu sorriso sacana me fez esperar com paciência para o que ele iria fazer. Seus lábios estavam vermelhos por causa da pressão que fizeram contra os meus e ele respirava longamente enquanto ainda permanecia parado com as mãos em meu rosto.

Esperei que Jackson dissesse qualquer coisa que tornasse o momento mais perfeito ou colocasse tudo por água abaixo, mas ele apenas deu um passo para trás e desceu as mãos lentamente pela lateral de meu corpo, parando em meus pulsos. Ele fechou uma mão ao redor de meu pulso direito e me obrigou a girar, minha barriga encontrando a borda do balcão de mármore, mas foi seu corpo encontrando minhas costas que me fez arfar alto e jogar a cabeça para trás. Estar naquela posição significava que eu não resistiria mais nenhum segundo e que minhas intenções quando pisei naquele lugar foram correspondidas.

As mãos puxaram meu vestido para cima até minha cintura e uma delas acariciou minha bunda exposta pela calcinha fio dental, o toque causando arrepios por todo o meu corpo. Ele sabia como me atiçar, como tocar nos locais exatos para me desconectar completamente do mundo, e seus dedos desceram entre minhas nádegas para encontrar meu sexo já encharcado, deixando suas pontas ligeiramente umedecidas quando ele começou a me acariciar lentamente. Eu apertei o balcão ao meu alcance e deixei um gemido baixo denunciar que o prazer já estava instalado em meu corpo, escutando sua risada de satisfação por saber daquilo.

- Eu adoro te escutar gemer dessa forma... - Jackson murmurou colando o corpo mais ainda em minhas costas e me deixando perceber que ele também já estava excitado. - Sou capaz de gozar em minha calça se não tiver qualquer tipo de controle com a sonoridade de seu prazer.

- Não... - eu gemi com desespero e Jackson apertava o dedo médio sobre a região onde meu clitóris estava sabendo que aquilo me deixava fora de controle. - Por favor, não goze em sua calça.

- Onde você quer que eu goze, minha Kristen? - ele sussurrou em meu ouvido enquanto puxava meu cabelo para cima e respirava contra minha nuca. - Diga-me exatamente que eu te obedecerei como um fiel escravo...

- Em mim. Dentro de mim. - respondi jogando minha cabeça para trás e lábios macios encontraram minha orelha direita para em seguida os dentes perfeito morderem sua ponta. - Eu quero sentir você gozar em mim, Jake... Por favor.

- Não precisa mais implorar. - o gemido soou em meu ouvido causando um arrepio de certeza; eu seria dele por mais aquela noite.

Mas antes de ele começar a se despir também, Jackson pegou a taça de vinho em minha frente e a levou até a boca para tomar um gole. Eu respirei fundo para tentar oxigenar meu cérebro e me fazer raciocinar direito, mas era uma tarefa impossível de ser realizada por completo, pois eu estava rapidamente dominada por todo o clima daquela noite.

O homem que atormentava minha mente estava se ajoelhando atrás de mim enquanto descia minha calcinha e eu só queria que nossa relação não fosse complicada demais para tornar tudo tão doloroso como eu já conseguia sentir.

Eu tinha plena certeza de que na manhã seguinte eu estaria arrependida e com os olhos inchados de tanto chorar, mas eu gostava de me iludir um pouco ao imaginar que nós éramos apenas um casal comum em mais uma transa qualquer. Machucava tão quanto os erros seguidos de Jackson, mas o drama fazia parte de minha carreira e era o combustível de minha amarga vida. Sem ele eu seria um personagem sem função nesse mundo, meu diferencial era o sofrimento intenso que ninguém conseguia enxergar.

- Oh, Deus... - eu gemi alto ao sentir a boca de Jackson encaixar perfeitamente em meu sexo quando ele começou a me chupar daquela forma especial. - Jackson, por Deus...

Ele riu contra meu sexo e sua língua quente quis me invadir, mas apenas a ponta conseguiu encontrar meu interior encharcado antes dele voltar a chupar com bastante vontade. O ardo do pouco de vinho em sua boca só me deixava mais excitada ainda e meus dedos começavam a doer com a força que eu apertava a borda de mármore do balcão, meu orgasmo tão próximo que eu sentia minha garganta secando e meu sexo se contraia em busca daquele prazer que somente Jackson conseguia me causar.

Só faltava um último estímulo para que meus gemidos se tornassem altos e os vizinhos soubessem que alguém dentro daquele apartamento estava gozando, mas ele gostava de me torturar e subiu seus lábios molhados de mim por minhas nádegas, o começo de minhas costas e parou em minha nuca. Sua mão grande e calejada por tocar guitarra desde o doze anos puxaram meu rosto para o lado e minha boca foi novamente gratificada por seu beijo dominante, a saliva com sabor de vinho e gozo me fazendo gemer em sua boca. Eu adorava o gosto que os lábios de Jackson tinham após ele ter me proporcionado um quase prazer oral, pois era o sabor que me perseguiria até eu assumir para mim mesma que eu era apenas dele, não de outro homem. Disso eu tinha certeza a tempo bastante para se tornar uma burrice insistir.

Eu deveria estar muito enlouquecida pelas mãos de Jackson descendo por minha cintura e quadril novamente, pois nem ao menos escutei o barulho que suas roupas saindo de seu corpo produziram e quando eu menos esperei pude sentir apenas a extremidade de um membro tocando meu sexo desaguando de prazer.

Minha cabeça arqueou automaticamente com o arrepio que aquilo me causou e proporcionou a ele uma oportunidade para agarrar meu cabelo pela nunca e colar seu peito nu em minhas costas seminuas. Me sentir sendo preenchida de vez pelo homem que me deixava tonta de verdade já fez valer todo o sofrimento passado e minha mente canalha apagou todas as lembranças que deveriam me fazer chorar para deixar-me apenas a mercê das novas que seriam instaladas.

- Você consegue sentir como nós somos perfeitamente compatíveis? - ele sussurrou em meu ouvido quando deu uma estocada em meu sexo tão lenta que eu precisei me controlar para não fazer um movimento desesperado com meu quadril. - Sem você me engolindo dessa forma eu não sou ninguém, Kristen...

- Jackson... - eu gemi de volta sentindo outra estocada lenta me torturando. - Por favor... Eu não vou suportar mais nenhum segundo...

- Eu não suportei esses meses longe de você. - sua mão subiu por minha nuca e deslizou para se encaixar na lateral de meu pescoço e puxar meu rosto um pouco para o lado. - Você é como uma droga para mim, garota.

Foi automático o gemido escapar de minha garganta com tanta força que eu era capaz de sentir minhas cordas vocais tremerem com a vibração de demonstrar o prazer de escutar aquela frase especifica vindo de Jackson causou em mim. A invasão em meu corpo era menos brutal do que a sensação de ser uma droga para aquele homem, pois era... Era difícil entender exatamente o que ser o vício figurado de Jackson me causou naquele momento.

Por causa de um vício mais real, aquele momento perfeito entre nós dois não durou muito tempo e logo eu senti Jackson travar as mãos com mais força em meu quadril para então gozar dentro de mim sem ao menos esperar-me. Mas eu já tinha experiências e sabia encontrar algum tipo de prazer, mesmo insignificante, no modo egoísta dele me comer e, como um robô, meus dedos foram para meu clitóris em busca dos últimos estímulos enquanto eu o escutava ainda ofegante contra minha nuca. Antes mesmo de Jackson ter forças para deixar meu corpo, eu senti o orgasmo nascer da fricção de meus dedos e morrer no gemido alto digno de uma atriz pornô. Eu era uma atriz de verdade, mas não suportava atuar até mesmo na hora que algo real deveria sair de mim e nem isso ele me proporcionava mais.

Então, o vazio tomou conta de mim e eu fiquei parada no mesmo local que Jackson me deixou quando puxou a calça para cima e saiu em direção à sala. Eu sabia o que ele iria fazer, mas eu queria acreditar que tudo estava mudado e que eu não iria viver mais um pesadelo ao vivo e sem cortes. Ele poderia te ido buscar meu maço de cigarros dentro de minha bolsa no sofá, pois sabia como um cigarro só tornaria nosso prazer maior ainda, ou poderia estar no quarto arrumando sua cama para que eu pudesse dormir em seus braços como nos raros momentos de paz entre nós.

Mas sua demora só confirmava meu pensamento e eu arrumei meu vestido antes de caminhar com calma até a sala de estar. O encontrei inclinado sobre a mesa de centro e o único barulho ecoando no ambiente era de seu nariz agindo como um aspirador de pó. Ele sugava com a narina esquerda todo o pó sobre a mesa com ânsia e eu assistia parada atrás do sofá mais um minuto de sua degradação.

Quando ele terminou a quantidade de cocaína separada para ser cheirada, sua cabeça caiu no encosto do sofá e um sorriso débil se formou em seus lábios me fazendo sentir que eu era culpada por aquilo estar acontecendo. Não, eu não era a responsável por Jackson ser um junky em processo quase final de degradação, mas eu era a responsável pela dor em meu peito batendo com força contra minha caixa torácica. Eu escolhi ir até seu apartamento mesmo depois da briga que nos fez terminar de vez, eu decidi que poderia agüentar vê-lo cheirando e me tratando como uma vagabunda qualquer para uma foda sem significância, mas eu não agüentaria ver o homem que eu amava se matando daquela forma.

- Eu preciso ir. - murmurei sem saber para quem ouvir e tentei pegar minha bolsa no sofá, mas Jackson a segurou.

- Por que você já vai? - ele perguntou fungando alto e eu fechei os olhos de nojo daquele som. - Nós apenas começamos.

- Não, você apenas começou. - retruquei sem conseguir prender a raiva dentro de mim. - Eu simplesmente não consigo mais suportar isso...

- Isso o quê? - Jackson perguntou se levantando e parando em minha frente para me impedir de andar.

- Isso! - respondi apontando para o pó sobre a mesa de centro. - Eu não suporto mais isso.

- Eu realmente não quero começar essa discussão outra vez. - ele pediu respirando fundo para se acalmar, mas eu estava longe de me sentir calma.

- Justamente, por isso eu vou embora antes de começar tudo outra vez.

- Então, vai ser assim? - eu o ouvi perguntar quando consegui pegar minha bolsa do sofá.

- Assim como, Jackson? - retruquei atingindo outro nível de irritação e jogando a bolsa com força de volta ao lugar onde ela estava.

- Você vai embora e vai me dar a certeza que não me ama mais?

Sua voz poderia ser dura e deveria me passar aquela sensação de culpa por não amá-lo mais como ele estava dizendo, mas seu olhar me passava a certeza de que tudo não passava do jogo que ele gostava de brincar comigo. As frases sempre ditas nas horas certas, me pegando nos momentos de fraqueza e facilitando minha estupidez de continuar sem fim, mas dessa vez eu não iria deixá-lo fazer meu coração sangrar como nas outras vezes que eu permiti que minha vida fosse destruída.

- Não que eu deixei de te amar, Jackson. - falei pausadamente sem encará-lo ainda. - Mas é impossível vencer essa competição.

- Competição? - ele perguntou sem entender. - Do que você está falando?

- Eu realmente não queria me comparar a isso, mas é impossível quando ela consegue coisas que eu jamais conseguirei...

Eu me sentia uma idiota por me comparar a uma substância que estava o matando aos poucos e eu queria ser maior que algumas gramas de pó sobre uma superfície lisa, mas eu também estava me destruindo sem nunca ter deixado um grão entrar por meu nariz. De certa forma o pó corroia minha mente e me deixava em um estado deplorável.

Eu estava longe de ser a Madre Tereza querendo salvar o homem que eu amava. Minha atitude era bastante egoísta, pois eu queria acabar com meu desgaste emocional por ver que eu não poderia fazer mais nada a respeito.

- Eu te amo, Kristen. - Jackson falou antes mesmo que eu conseguisse expressar o que eu queria. - Eu vou parar se você quiser.

- Não me prometa isso outra vez. - bradei entre os dentes. - Eu estou cansada de acreditar em vão em você e dois minutos depois te ver enfiar o nariz em um monte de pó. “É a última vez, eu prometo...”. É a última vez que eu deixo isso acontecer comigo, Jackson, pois eu desisto de ser uma espectadora de sua decadência.

- Eu não vou deixar você sair dessa forma. - ele disse e segurou meu braço. Foi a gota d’água.

- Me diga uma única vez nos últimos dois anos que eu não deixei esse apartamento sem ter gritado com você pelo mesmo motivo?! - minha voz se alterou de acordo com minha raiva crescendo exponencialmente. - Todas as vezes que eu pensei que fosse passar uma noite maravilhosa ao seu lado, você conseguiu estragar tudo ficando louco demais, desmaiando no banheiro porque cheirou e bebeu além da conta, terminou com o nariz corroído de tanto pó... Você não tem noção de como você me fez sangrar assistindo isso, Jackson.

- Eu quero ficar com você. - ele disse segurando meu rosto e eu não pude evitar minha cara de nojo ao ele me roubando o juízo com o toque. - Mas eu estou na merda e você precisa me ajudar, Kristen.

- Eu não vou me desgastar outra vez. - murmurei fechando os olhos e senti meu rosto sendo empurrado quando ele o soltou com força.

- Você é uma vagabunda egoísta mesmo... - seu comentário foi rápido e direto, mas não me abalou em nada.

Eu sabia que era o Monstro do Pó falando por ele, mas mesmo assim eu me sentia um pouco atingida por suas palavras, mais pelo fato de elas saírem do homem que eu dependia. Sangrando como um veado atingido por um leão.

Era o mesmo monstro que me mandava ir para o inferno quando eu reclamava do gosto de sangue em sua boca, que quase me bateu quando eu destruí seu monte de pó certa vez. Era o que me fazia chorar e jurar que jamais me envolveria com ele, mas eu tinha uma inclinação para o drama e para o sofrimento sem fim.

- Você só pensa em você e na sua imagem de merda. - ele gritou acendendo um cigarro e indo para o quarto. - Eu estou te pedindo ajuda e você me nega na maior cara de pau?

- Quantas vezes eu perdi minha noite trancada no banheiro com medo porque você fica violento quando cheira demais? - eu gritei de volta ficando completamente ruborizada de ódio. - Quantas vezes eu precisei chamar a emergência depois de tanto pó e bebida? Você não tem o direito de me chamar de egoísta, Jackson.

- Mas você age como uma egoísta. - seu grito tentou me ferir, mas eu estava segura de minhas ações. - Se você me ama como diz, deveria me ajudar.

- O problema é que eu estou cansada de te amar, de tentar te salvar e só me fuder porque você é o egoísta entre nós dois. - minha voz saiu firme, pois aquela era a única verdade dita toda a noite.

Finalmente consegui pegar minha bolsa do sofá e dá dois passos com ela na mão antes de Jackson segurar meu braço para me impedir de deixar o apartamento em meio a uma briga, mas eu estava disposta a deixá-lo de verdade daquela vez, deixar aquela vida, aquele homem que me destruía. Ele poderia entender minhas palavras, mas estava perdido demais nos pensamentos confusos para lutar por o que nós tínhamos. Dessa forma, eu bati a porta com força e andei decidida para longe daquele lugar.

O único som que me acompanhava pela rua deserta era de meu salto batendo no asfalto e o vento frio batendo em minha pele me fez lembrar que eu deixara minha calcinha no chão da cozinha, mas eu havia deixado muito mais naquele lugar. Definitivamente, eu havia deixado o último fragmento de meu coração e agora nada parecia vivo em meu corpo. O último resquício de humanidade me avisando que eu ainda estava viva eram as lágrimas ácidas fazendo minha pele arder e aquilo representava minha última auto-traição.

Eu nunca mais deixaria um homem me destruir tanto ao ponto de minha vida não ter o mínimo de sentido. O que restava de mim era um vulto do que Jackson me roubou.


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