Paparazzi
Kristen! Kristen! Kristen!
Aqueles homens não deveriam estar gritando meu nome com tanta intimidade e violência, só me faziam sentir que eu estava sendo abusada como nas outras ocasiões. Um estupro, mas ao invés do meu sexo, minha imagem era dilacerada por câmeras modernas e de longo alcance. Eu os sentia me penetrando sem permissão, atingindo fundo em meu corpo com aquela dor que não seria superada por nenhuma outra no mundo. Eu via o sangue escorrer por suas lentes em zoom - meu sangue, eu via os sorrisos de satisfação ao atingirem o orgasmo fotográfico por minha causa.
Se eu tivesse uma espinha no couro cabeludo, eles iriam registrar. Se eu tivesse um coração partido, eles iriam notar. Nada poderia ser escondido quando se estava debaixo da lente de aumento chamada Hollywood e eu realmente não tinha nada a esconder deles, mas também não precisava de novas fotos minhas saindo bêbada de uma boate para estampar revistas, sites e blogs. Eu estava cansada e não tinha forças para reivindicar, apenas deixava meu corpo alcoolizado ser conduzido para o carro por meu segurança particular e em segundos a gritaria seria desfeita pelos vidros fechados.
- Saiam do caminho! - o grito interrompeu em meu ouvido direito e eu apertei os olhos com a dor de cabeça.
Calem-se, papasitas. Minha fábrica de notícias fechou por hoje, minha mente processou quando meu esôfago ardeu e meu peito se apertou mais ainda de desespero.
Meu corpo bateu contra algo gelado e duro - uma porta talvez - e uma mão forçou meus joelhos a dobrarem para que meu corpo fosse carregado alguns segundos até encontrar a maciez de um banco de couro espaçoso. Pronto, eu estava bem novamente e me aconcheguei sem me importar em fechar as pernas e segurar o decote tomara-que-caia do meu vestido. As pessoas do lado de fora precisavam de uma foto comprometedora para piorar minha situação e certamente estavam conseguindo. Aquela não seria a primeira vez que um vexame seria dado por minha pessoa ao sair de alguma festa.
Quase caí do banco quando o carro arrancou bruscamente, mas alguém me segurou outra vez. Eu sempre era segurada, algo sempre servia de apoio em minha jornada e eu não reclamava. Era mais fácil encontrar força em alguém que encontrá-la dentro de mim mesma e colocá-la para fora alguma vez na vida. Eu não saberia contar quantas vezes agi por vontade própria e não precisei de uma ajuda no final.
- Ligue para a editora da Ok Magazine. - a voz de minha agente e também amiga, Nikki Reed, ecoou em algum lugar do carro, mas meus olhos apertados para voltar a respirar normal me impediam de vê-la. - Eu vi os fotógrafos de lá na porta da boate. Não quero essas fotos na capa de amanhã e outro processo por difamação.
Lutei com meus braços enroscados em meu rosto e fiquei sentada no banco, percebendo ao olhar pela janela que nós estávamos em alta velocidade por alguma rua deserta de Los Angeles. Mimi, meu segurança - Mike na verdade, mas eu era a única pessoa que tinha permissão para chamá-lo assim - dirigia meu carro e ao seu lado Nikki falava ao celular com alguém. Eu estava tão desnorteada com a saída da boate que demorei alguns segundos para perceber que a garota de nariz arrebitado com maquiagem perfeita que estava ao meu lado era Ashley Greene, minha melhor amiga desde... naquele momento eu não conseguia recordar.
- Para casa? - Mimi perguntou olhando para Nikki.
- É o esperado. - ela respondeu com frieza.
- Preciso de um cigarro... - murmurei inclinando meu corpo para a parte da frente do carro e ficando presa entre os bancos, mas Ashley me puxou de volta.
- Não, você precisa de banho e cama, Kris. - ela disse sem paciência. - Seu show já terminou por hoje...
Um toque estridente me incomodou ao ecoar muito alto e eu tapei meus ouvidos sensíveis pela embriaguez fazendo minha expressão de desgosto mais perfeita. Ashley pegou uma carteira dourada ao meu lado e tirou meu celular de dentro, revirando os olhos ao ver o nome no visor.
- Oi, Michael. Não, é a Ashley...
Quem era Michael e por que ele estava me ligando? Eu não tinha mais noção de nada porque meu estômago dava voltas como uma roda gigante e eu sentia meu corpo banhado de suor frio, gelado na verdade. Aquilo não significava algo muito bom...
- A Kristen não estava se sentindo muito bem e nós deixamos a festa mais cedo... É, uma pena mesmo...
Não era nada legal e eu sabia disso porque senti o gosto de tudo que consumi naquela noite em minha boca, queimando meu estômago e garganta. [i]Merda[/i], eu pensei prendendo um arroto prenunciador e olhando ao meu redor.
- Talvez uma próxima vez, eu falo com ela...
Quando o vômito veio, eu não consegui controlar e despejei no chão do carro, perto do pé esquerdo de Ashley. Ela soltou um grito de nojo e certamente me olhou com raiva, mas eu estava concentrada demais em colocar quase mil dólares de vodka para fora em alguns segundos e segurar meu cabelo para não sujá-lo. Alguns anos de prática me levaram a cuidar de mim mesma durante acessos de vômitos e ressacas monstruosas e ninguém ao meu redor tinha mais saco para cuidar de mim naqueles momentos.
- Eu mando a conta da lavanderia para você, ok? - Ashley falou quando eu me recostei no banco e limpei minha boca.
- Desculpa... - murmurei com os olhos fechados.
- Água. - Nikki disse me entregando uma garrafa aberta e eu tomei um gole. - Está melhor?
- Não... Quem estava no celular com você, Ash?
- Michael Angarano, seu fã. - ela respondeu arrancando risos dos outros.
- Fã? - perguntei sem entender. - Como um fã tem meu celular?
- Ele não é um fã na forma literária da palavra. - ela explicou ainda rindo. - É aquele ator que não larga do seu pé há alguns meses, lembra? Um baixinho...
- Não lembro ninguém além de Jose Cuervo e Absoluty por hoje.
- Como sempre... - Nikki murmurou e voltou a mexer em seu celular.
- O que ele queria?
- Saber por que você deixou a festa tão cedo e se você quer almoçar com ele amanhã.
- Eu deveria? - perguntei ainda desnorteada com a bebedeira.
- Em minha opinião, sim. Ele é uma gracinha e não parece ser um idiota como os outros atores.
- Mas ainda é cedo para você sair com outro ator. - Nikki expressou sua opinião rapidamente. - Não depois do Jackson e de toda a história entre vocês dois.
- Entendi... - murmurei encostando minha testa no vidro e fechando os olhos.
Tinha uma vaga lembrança sobre meu relacionamento com Jackson Rathbone, meu ex-colega de trabalho, mas não me concentrei em recordar o que levou ao fim de nosso namoro e a aquele medo estranho de eu me envolver com outro ator que minha agente tinha.
Naquele momento eu só queria minha sobriedade, uma cama quente e sair daquele carro fedendo a vômito.
Naquele momento eu só queria minha sobriedade, uma cama quente e sair daquele carro fedendo a vômito.
Estranhamente, eu lembrei minha infância em Nashville, na fazenda de minha avó paterna aos sete anos. Eu sentia o cheiro de mato molhado, o barulho dos cavalos no celeiro, a sensação gostosa que tinha quando pisava os pés descalços no chão de terra batida. Eu também queria minha infância de volta, morar no campo e não ser perseguida por fotógrafos em todos os cantos da cidade. Pensar nas facilidades de minha vida anterior me fez adormecer num piscar de olhos.
Acordei enquanto era carregada por Mimi em direção ao meu quarto em meu apartamento silencioso e escuro. Ashley estava ao meu lado, mas eu não via sinal de Nikki. Na certa, ela estava telefonando para alguma revista e evitando que mais notícias fossem veiculadas sobre mim e sobre aquela noite. Era apenas mais uma noite na vida de Kristen Stewart, a atriz mais cobiçada dos últimos cinco anos, mas ninguém conseguia entender que aquela era minha forma de viver e não havia nada de errado em ser inconseqüente em todas as situações.
- Estou muito encrencada? - perguntei a Mimi.
- Não, garota. - ele respondeu rindo. - Nikki é competente o suficiente para limpar sua barra.
- Eu estou em sentindo um lixo...
- Você vai ficar pior amanhã.
- Eu nunca mais vou beber...
- Se eu ganhasse um aumento toda vez que você diz isso... - Mimi comentou com o riso na fala e me deitando na cama.
- Eu assumo daqui, Mike. - Ashley falou tirando meu salto. - Obrigada.
- Se cuida, garota. - ele disse antes de sair do quarto.
Mimi não era o mais próximo que eu tinha de um pai - até porque o meu ainda estava vivo, mas era o mais próximo que eu tinha de juízo. Ele era a pessoa responsável por me manter viva em qualquer ocasião e me tirou de diversas enrascadas que eu não conseguiria resolver sozinha. Em quase cinco anos de parceria, eu não poderia apontar uma pessoa que tivesse me ajudado tanto quanto ele.
No conforto de minha cama, eu puxei um travesseiro e o abracei para dormir, mas os planos de Ashley para o final de minha noite eram outros. Ela tirou o travesseiro de meus braços e tentou me colocar sentada na cama, mas eu insistia em ficar deitada, pois tudo ao meu redor ainda girava e me deixava mais enjoada ainda.
- Banho, Kris. - ela disse conseguindo me colocar em pé. - Não vou deixar você dormir fedendo a vômito e vodka.
Fui praticamente arrastada para meu banheiro limpo e iluminado com a ajuda de Ashley. Ela realmente estava disposta a me colocar limpa para dormir quando me fez ficar em pé no meio do banheiro e puxou meu vestido justo para cima com certa dificuldade. Com aquele ato, uma lembrança surgiu em minha mente...
- Você tirando minha roupa assim me lembra outro final de noite nesse banheiro... - comentei rindo maliciosamente e suas bochechas coraram.
- Quer falar baixo? - ela pediu rapidamente. - Não preciso de minha vida particular sendo exposta por ai...
- Eu estou bêbada, ninguém acredita no que eu digo mesmo...
- Mesmo assim... - ela murmurou envergonhada e eu a provoquei mais um pouco ao colocar uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.
- Eu me lembro de você gostando muito... - sussurrei e finalmente consegui a fazer rir.
- Tem certeza que você só bebeu hoje? Você está louca demais...
Eu sabia disso desde comecei a beber naquela festa e Ashley riu junto comigo quando me colocou debaixo do chuveiro quente e me obrigou a tomar banho. Fiquei parada enquanto a água me esquentava um pouco e ela desistiu de me fazer passar sabonete depois de um tempo, me enrolando em uma toalha e me fazendo sentar no vaso para secar meu cabelo. Não sei o que aconteceria com minhas noites de festas se não fosse por Ashley sempre me colocando inteira na cama mesmo quando era um pé no saco quando estava bêbada.
- Boa noite, Bella. - ela disse beijando minha bochecha quando eu já estava enrolada no edredom grosso.
- Boa noite, Alice... - murmurei de volta, começando a ficar sonolenta outra vez.
Apaguei em segundos e meus sonhos foram os de sempre; eu estava caindo em queda livre e nenhuma das milhares de mãos que tentavam me puxar eram capazes de me segurar, meu corpo destruído atingindo o final do abismo. Minha vida era mais ou menos assim quando eu estava acordada.
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