I Like it Rought
Bati a porta com força e tentei respirar fundo dezenas de vezes antes de ligar o carro para deixar aquela rua vazia. Eu precisava dirigir o mais rápido possível para longe dali, ficar a quilômetros de distância de Jackson e de seu vício que me destruía mais do que a ele. Nada além de minha culpa mais uma noite terminar daquela forma e eu ter lágrimas inundando meus olhos, mas eu não conseguia me livrar do sofrimento fácil que ele me proporcionava.
Era como se nos momentos em que eu estava gritando com ele e sentindo meu coração despedaçado, eu finalmente me sentisse viva no meio daquele mar morto de pessoas artificiais ao meu redor. Sentir dor, ódio e desespero me traziam uma sensação de vivacidade que a “Cidade dos Anjos” estava me roubando a cada ano que eu passava sob seus holofotes, mas aquela não era a forma mais saudável de viver. Eu não poderia continuar deixando que ele me causasse taquicardia e corroesse meu estômago com a úlcera nervosa que eu tinha após anos de estresse com imprensa e com amores mal resolvidos.
Esmurrei o botão do som para preencher aquele silêncio agonizante que meu motor silencioso só piorava. Não sabia qual CD estava no ponto ou qual estação de rádio estava sintonizada, só escutei a gritaria e as distorções de uma guitarra tão nervosa quanto minha mente.
“Get away from the drugs you’re taking, get away from the man that’s stilling your life…"
Nossa! Como não poderia ser mais apropriado do que Velvet Revolver tocando “Dirty Little Thing” naquele exato momento em que eu me sentia uma coisinha podre sem significado algum? Era a porra do destino brincando mais uma vez comigo e eu esmurrei o botão outra vez para o silêncio me martirizar. Era melhor do que palavras exatas mostrando como eu só estava fudendo minha vida mais ainda.
Foi então que eu lembrei o motivo que me levou a odiar Jackson e prometer a mim mesma que não iria mais afundar por causa dele. Desde que pisei em seu apartamento naquela noite eu apaguei de minha mente a última noite que nós tivemos e o que ele fez comigo para me deixar aterrorizada de uma forma que me fez abandonar de vez o homem que eu amava.
As lágrimas ardiam com mais violência contra minha pele agora que a lembrança se tornava mais clara em minha mente...
FLASHBACK
Meus pés descalços escorregavam contra o carpete do meu quarto enquanto eu corria em direção ao banheiro, mas fui impedida por uma mão segurando meu cabelo e o puxando para me fazer parar.
- Me solta, seu idiota. - gritei tentando me desvencilhar do aperto, mas era impossível.
- Não, sua vadia egoísta. - Jackson gritou me atirando contra minha cama bagunçada, ainda com resquícios dos minutos de prazer que nós tivemos antes de tudo se transformar em um inferno mais uma vez.
Eu ofegava enquanto o observava se aproximar de mim. Sua narina esquerda estava sangrando, mas não era uma quantidade de sangue que indicasse que ele pudesse estar machucado ou algo parecido. Era apenas o sangue mínimo que deixou a ferida já aberta causada por uma quantidade excessiva de pó nos últimos três dias.
Breaking Dawn já havia terminado de ser filmado e, como ele me prometeu, nós tiraríamos um mês de férias para aproveitar sem flashes de paparazzis nossa relação, mas Jackson colocou tudo a perder quando me pediu para ficar um final de semana inteiro trancado em meu apartamento antes da nossa viajem paras as Ilhas Gregas.
O que deveria ser um final de semana romântico se transformou no inferno ao vivo na terra a partir do momento que ele depositou quase meio quilo de pó sobre a bancada da cozinha e separou a primeira parte para ser consumida. Ele dizia estar limpo há uma semana, mas eu desacreditei rapidamente em suas palavras quando o vi cheirar sem ânsia, como um velho hábito. Hábito que não tinha morrido e só ganhava forças com as horas que ele perdeu cheirando, bebendo e fumando antes de lembrar que eu existia.
Sem força alguma, não lutei quando ele me agarrou e me obrigou a transar com ele. Senti-me uma vagabunda frígida em sua mão enquanto o escutava gemer de prazer e nada no meu corpo me informava que eu pudesse ter aquela sensação também. Não, eu era um ser inanimado que ficava na posição que ele queria e servia apenas como orifícios de fácil alcance no caso de ele precisar descarregar um pouco o frenesi que o pó lhe causava.
O único minuto de lucidez que ele teve ocorreu no terceiro dia, quando eu estava chorando na varanda de meu apartamento e Jackson percebeu que algo estava errado. Ele escutou meu pedido desesperado para que ele parasse com o pó e percebesse que eu estava sofrendo por causa dele. Mais uma frase falsa saiu de seus lábios e outra vez eu o escutei prometer que não iria mais cheirar, que iria ser um homem melhor para mim.
No começo daquela noite ele me amou como há tempo não fazia, ele esperou por mim, ele soube me fazer uma mulher feliz e ridiculamente mais apaixonada por ele quando as lágrimas de alívio inundaram meus olhos no ápice de nosso prazer. Eu confie no seu pedido de desculpa feito enquanto eu estava quase adormecendo em seus braços suados e tinha meu corpo embalado por sua respiração, mas ao acordar com uma sensação de vazio no meio da noite tudo voltou ao normal.
Vestida com meu robe de seda, segui até a sala e encontrei Jackson debruçado sobre a mesa de centro com o nariz enterrado em um novo monte de pó. Ele fungava a droga com vontade e só percebeu minha presença quando levantou a cabeça para esfregar o nariz já muito vermelho. Minhas lágrimas descendo com força por minhas bochechas o indicavam que eu estava machucada outra vez, mas ele parecia não se importar.
- Você prometeu. - eu murmurei sem força. - Por que, Jackson?
- Porque eu sou um viciado sem volta, Kristen. - ele gritou ficando em pé e me encarando com ira nos olhos.
- Você precisa de ajuda profissional porque eu não vou agüentar mais te ver dessa forma.
- Você não precisa agüentar nada disso. Não é você que se droga a cada minuto com medo de uma abstinência doentia.
- Eu sofro por te ver se destruindo dessa forma, seu imbecil. - gritei empurrando seu peito e ele cambaleou sem equilíbrio pelo nível de drogado que já estava. - Você não ainda percebeu isso?
- Você sofre porque você quer. - ele retrucou esfregando o nariz com mais força por causa daquela coceira que o pó causava em sua mucosa nasal ferida e um filete de sangue desceu por sua narina esquerda. - Ninguém te pediu para ficar assistindo. Ninguém te pediu para ficar comigo mesmo sabendo de meus problemas.
- Você transformou meu apartamento em um antro e você quer que eu feche os olhos toda a vez que você cheira? - gritei pouco me importando com os vizinhos de baixo.
- Eu não posso parar e você sabe disso. - ele retrucou na mesma gritaria.
- Eu não suporto mais te ver assim, Jackson. Eu não suporto mais isso.
Fiz a pior escolha daquela noite quando passei minhas mãos rapidamente para limpar o pó restante sobre a mesa de centro e algumas gramas de cocaína se perderam no tapete felpudo da sala. O desespero tomou conta de Jackson quando ele me viu fazer aquilo e a próxima coisa que eu senti foi meu corpo sendo empurrado com força contra o sofá enquanto ele tentava salvar um grão que fosse. Foi nesse momento que eu saí correndo para me trancar no banheiro como fazia todas as vezes que tinha medo daquele homem.
- Eu vou te matar, sua vagabunda. - ele disse entre os dentes quando segurou meu pescoço com as duas mãos e o apertou sem força, pois estava drogado demais. - Eu perdi quase mil dólares por sua causa.
Consegui me soltar de suas mãos e o empurrá-lo, conseguindo finalmente me trancar no banheiro e me isolar do que estava acontecendo no exterior. Os murros contra a madeira da porta chegavam a me ensurdecer, mas eu tapava meus ouvidos enquanto escorregava em pranto para o chão. Minha vida estava destruída naquela noite e eu finalmente tinha encontrado forças para não desejá-lo nunca mais.
- Abra essa porta, Kristen. - Jackson gritou esmurrando a porta com mais força.
- Vá embora! - gritei de volta e minha garganta ardia com a força que eu usei no meu grito.
Ele ainda insistiu um pouco, mas logo um barulho estranho veio do exterior do banheiro e eu o escutei gritar com alguém, mas não tive coragem para abrir a porta. Permaneci no chão me balançando para frente e para trás como uma garota assustada.
- Kristen, pode abrir a porta. - escutei a voz de Mimi depois de um tempo.
Levantei a mão para destrancar a porta e me afastei dela para Mimi poder entrar no banheiro e me tirar do chão enquanto eu soluçava e apertava seu braço em busca de apoio. Ele me depositou na cama e tentou soltar meus braços ao redor de seu pescoço, mas eu estava assustada demais para ficar sozinha naquela noite.
- Ele foi embora, não se preocupe. - Mimi disse tentando me acalmar.
- Por favor, Mimi. Fique comigo. - pedi o puxando para sentar na cama e abraçar seu corpo grande.
De alguma forma eu consegui encontrar paz nos braços enormes de meu segurança particular e adormeci enquanto ele acariciava meu cabelo e dizia que tudo ficaria bem. Na manhã seguinte - quando acordei sozinha e encontrei Nikki, Ashley e Mimi conversando sobre a noite anterior - eu tomei a decisão de minha vida; Jackson jamais conseguiria me infernizar daquela forma. Mudei meu telefone, celular, senha do código de segurança de meu apartamento e de carro só para ele não ter uma forma de me encontrar e tudo recomeçar.
Eu teria dois meses para me desintoxicar daquele veneno que ele deixou incrustado em meu coração, mas quando um encontro entre nós dois fosse obrigado a acontecer, eu iria cair mais uma vez, mas dessa vez teria força para deixá-lo antes de tudo ficar pior como naquela última noite juntos.
FIM DO FLAHSBACK
Funguei alto para afastar as novas lágrimas e parei nos sinal vermelho em uma rua mais movimentada. Ainda eram onze horas da noite e eu não queria ir para meu apartamento vazio, encher minha cara com vodka para tentar afogar minha dor que já sabia nadar melhor que o Michael Pelphs. Eu precisava encontrar alguma forma de me distrair ou até mesmo de desabafar tudo que eu passei em três horas ao lado daquele homem-veneno e só havia uma pessoa no mundo capaz de me aturar nesses momentos de desespero.
- Ashley, por favor, não me negue esse pedido de uma amiga despedaçada. - falei quando ela atendeu ao celular.
- O que aconteceu, Kristen? - ela perguntou respirando fundo.
- Jackson, ele aconteceu. - expliquei tentando não chorar.
- Ok, eu vou escutar suas lamentações mais uma vez. O código de segurança é o mesmo.
- Obrigada, Ash. Eu não saberia sobreviver sem você.
- Eu sei disso.
Não esperei nem o sinal ficar verde para arrancar com meu carro e dirigir para o outro lado da cidade, onde em um apartamento charmoso eu poderia chorar no colo de minha melhor amiga sem medo de uma câmera flagrar um momento de fraqueza vindo de uma atriz de Hollywood.
***
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