Boys Boys Boys
Mais um soluço preencheu o pequeno apartamento silencioso de Ashley e eu funguei alto para impedir de inundar suas coxas mais ainda com minhas lágrimas. Ela acariciava meu cabelo enquanto eu permanecia com a cabeça sobre seu colo e meu corpo encolhido como uma bola no sofá confortável demais para que eu quisesse deixá-lo. Era como um abraço apertado no meio de uma crise de choro e eu me sentia ridícula por gostar do conforto de uma móvel como deveria gostar de uma carícia humana, mas meu corpo não conseguia responder a mais nada vindo de ninguém depois de tanto esfolamento seguida.
- Eu me odeio. - falei apertando a coxa de Ashley sem força, mas em busca de algum apoio. - Eu sou a maior idiota do mundo.
- Você não é idiota, Kristen. - Ashley disse com um tom cheio de tédio por ser a centésima vez que nós tínhamos aquele diálogo em menos de um ano. - Você só está cega de amor.
- Como é possível alguém amar um filho da puta como o Jackson é? - perguntei erguendo minha cabeça e me ajeitando para sentar no sofá. - De todos os homens no mundo, por que eu tinha que amar justamente o que me faz mal?
- Esse é o tipo de mistério de ninguém irá resolver. Jackson era o que nós achávamos ser o homem perfeito no começo do relacionamento, mas a máscara dele caiu e você percebeu como alguém tão afundado em drogas pode ser um transtorno na vida de qualquer pessoa.
- Eu acreditei que ele me amava, que ele fosse mudar todas as vezes que disse que largaria o pó por minha causa. - murmurei passando minha mão por meu cabelo cheio de nós e bufando de raiva.
- Kristen, você realmente achou que ele fosse largar o pó? - Ashley perguntou erguendo uma sobrancelha bem delineada. - O Jackson está mais fudido que nunca. Ele jamais largará o pó, especialmente por sua causa já que você faz questão de estar sempre presente quando ele quer.
Era a pura verdade e não me machucava mais. Eu já conseguia enxergar como eu era uma mulher burra por correr como um cão adestrado para o dono ao ouvir um estalar de dedos e obedecer ao seu pedido. Jackson batia o chicote contra o chão e eu abanava o rabinho feliz com a dor que o ato causava, pois isso significava que por alguns míseros minutos eu o escutei dizer que me pertencia e que eu o fazia completo. Mas era uma completa mentira e eu a sustentei por tempo demais, passando até mesmo da hora de enxergar como eu estava mais morta do que viva na sua companhia.
- Eu não mais deixar que ele me foda dessa forma. - falei ficando em pé e passando a mão pelos olhos para limpar qualquer resquício de lágrimas. - Não vou continuar sofrendo por causa dele.
- Eu realmente queria acreditar em suas palavras, mas já te vi dizer isso e correr de volta pra ele sem pensar duas vezes. - Ashley me disse com voz de pena e eu não pude reivindicar, pois eu realmente era digna de pena.
Uma mulher que deixava um homem lhe roubar o juízo e não fazia nada a respeito não merecia mais viver dignamente. Minha dignidade já tinha perdido o prazo de validade há muito tempo.
- Dessa vez eu vou conseguir esquecer todo o mal que Jackson já me causou. - proferi com a esperança latejando em meu peito. - E eu vou começar isso agora.
- Como? - ela perguntou desconfiada.
- Fazendo o que faço de melhor. - respondi dando um sorriso de canto e caminhando para fora da sala.
- Não, não, não. - eu escutei Ashley protestar enquanto me seguia até seu quarto. - Eu não vou deixar você sair agora e encher a cara por causa do Jackson.
Mas eu tinha tomado uma decisão e estava determinada em sair daquele apartamento com a intenção de afogar minhas malditas mágoas em litros de champanhe ou em doses de vodka, não importa. Eu realmente estava precisando me perder no álcool e esquecer que o começo da minha noite se deu com mais uma vez eu me entregando a dor de amar um canalha. Ninguém iria me impedir, nem que para isso eu tivesse que ir sozinha a alguma boate.
- Por favor, Kristen. - Ashley pediu parando ao meu lado e me observando abrir sua malinha de maquiagem. - Nós podemos assistir a um filme, tomar umas margaritas e falar sobre o Jackson até você cansar.
- Eu não quero falar sobre o Jackson nem fazer programa de adolescente com o coração quebrado. - falei ríspida a olhando através do espelho. - Eu tenho vinte e um anos e vou agir como qualquer mulher de vinte e um anos após terminar um relacionamento.
- Nem todas as mulheres de vinte e um anos têm milhares de fotógrafos desejando uma foto saindo bêbada de uma boate. O que Nikki acha disso, hein?
- Dane-se Nikki, danem-se todos. - respondi irritada e abrindo o rímel sem delicadeza. - Eu vou sair, com você ou sem você.
Ashley bufou e cruzou os braços ao sentar na sua cama atrás de onde eu estava sentada para me maquiar. Ela sempre tentava me impedir de sair e de me expor ainda mais para minha imagem de party girl não ficar pior e eu reconhecia essa demonstração de amizade, mas eu não mudaria de idéia. O final de minha noite seria caindo novamente bêbada em minha cama e esquecendo que merda eu tinha decidido fazer.
- Você acha que a Trash vai estar lotada uma hora dessas? - comentei com a intenção de atiçá-la para sair comigo.
- É bem provável, mas você é Kristen Stewart. Qualquer lugar irá te deixar entrar até com vinte pessoas. - ela retrucou sem vontade.
- Não vou levar vinte pessoas. Só uma talvez...
- É muito tarde para sair e você sabe disso.
- Nunca é tarde demais para sair e você sabe disso. Não estou te reconhecendo, Ashley. Você costumava adorar sair comigo, nunca recusava um convite e agora está parecendo uma velha chata que prefere ficar em casa.
- Eu estou sem humor para me arrumar e ter que encarar uma pista lotada de gente suada, de atores em ascensão tentando te comer para conseguir alguma fama.
- Vai dizer que você não gosta?! Faz bem para o ego, boba. - ri passando mais um pouco de blush nas maçãs de meu rosto e analisando o retoque na maquiagem. - Ah, Ashley. Eu prometo que essa é a última vez que eu te chamo para sair.
- Duvido. Eu te conheço bem, Kristen. Semana que vem você tá me ligando para cair na balada.
- Já que você não quer ir, posso pegar seu vestido Chanel emprestado? - perguntei entrando no closet e sorrindo por saber que em menos de cinco segundos ela me seguiria gritando:
- Não, o Chanel não.
Ashley se colocou entre a arara onde o vestido estava e eu abrindo os braços de modo teatral para me impedir de pegar seu Chanel colorido simplesmente perfeito que ela usou na divulgação de Eclipse. Eu sabia que aquele vestido era seu xodó entre os outros que ganhou dos estilistas para viajar a Europa na divulgação, então, sabia que era um ótimo objeto para chantagem.
- Você pode pegar qualquer vestido, mas o Chanel fica.
- Você tem que escolher: ou me empresta o Chanel ou vai comigo.
- Ah Kristen. Não me faça escolher. - ela choramingou, mas eu apenas cruzei meus braços e bati meu salto no chão.
- Escolha senão eu vou pegar o Chanel de qualquer forma e ainda vou derrubar bebida nele.
- Tá, eu vou com você. - ela desistiu e bufou alto.
Dei alguns pulos de alegria e apertei o pescoço de Ashley enquanto enchia sua bochecha de beijos. Eu sabia que minha melhor amiga não me abandonaria em uma sessão de exorcismo sentimental regrada a muita bebida, até porque alguém precisava dirigir quando eu saísse bêbada e sem recordar até mesmo meu próprio nome. Ashley sabia que eu sempre precisava de auxílio nas situações descomedidas de minha vida e como uma excelente amiga ela não me deixaria sem o amparo necessário.
Conseguimos deixar seu pequeno apartamento após meia hora que ela levou para se arrumar, obviamente usando o Chanel só para esfregar em minha cara quem tinha o poder de usar o vestido, mas eu não estava interessada em roupas naquela noite. Eu queria uma garrafa da vodka mais forte com algumas rodelas de limão para limpar o pecado de minha mente e deixar para trás junto com o vômito no final da noite a sensação de burrice. Eu tinha a plena certeza de que choraria muito por ter cedido mais uma vez a Jackson se ficasse sozinha e em casa, então, a melhor solução para evitar outra crise dolorosa seria esconder minha dor com a máscara de Hollywood. A fama trazia o poder de mentir com as palavras e nos sentimentos.
A porta da boate Trash estava cheia de pessoas tentando entrar e de paparazzis registrando a chegada e saída de celebridades. O olhar de Ashley enquanto analisava a rua movimentada indicava que ela preferia muito mais estar em casa vendo algum filme e tomando sorvete, mas meu sorriso não morreu com a provável confusão que causaria quando pisasse fora do meu carro e mais uma vez Kristen Stewart fosse vista na noite hollywoodiana. Quando as portas da boate se fechassem e as lentes ficassem do lado de fora eu poderia curtir a fossa da minha maneira.
- Você não quer mudar de idéia? - Ashley me perguntou quando parei na entrada da boate e um manobrista se aproximou de minha porta. - Têm muitos fotógrafos aqui hoje.
- Têm muitos fotógrafos em qualquer lugar de LA, Ash. - ignorei seu pensamento e desliguei o carro. - Eu vou entrar na Trash e vou curtir como eu planejei.
- E eu não vou te deixar sozinha justamente agora. - ela se rendeu e segurou a maçaneta para abrir a porta, mas eu segurei sua mão.
- Obrigada por estar do meu lado sempre. - murmurei com um sorriso bobo e beijando seu rosto com carinho.
- Alguém tem que te segurar às vezes, sabe?
Sabia. E eu agradeci muito por essa pessoa ser Ashley, pois eu tinha a certeza de que ela era a única que me entendia como eu era e não julgava minhas atitudes de uma mulher burra ou louca. Eu era uma mulher como qualquer outra e meu coração poderia se quebrar facilmente como o de qualquer outra mulher.
- Boa noite, senhorita Stewart. - o manobrista disse quando entreguei minha chave. - Seja bem vinda à Trash.
- Obrigada.
Ter seu rosto estampado em todos os outdoors e a nação inteira saber quem você é era sem dúvida uma vantagens nesses momentos, mas assim que o primeiro flash disparou me cegando eu senti o arrependimento tomar conta de mim. Como uma onda de suor banhando meu corpo. Eu senti o famoso “medo de me expor” me dominando conforme os flashes aumentavam e os gritos me deixavam surda, mas não voltaria para o carro e me esconderia. Minha cabeça se manteve erguida enquanto eu segurava a mão de Ashley e atravessava a multidão com um sorriso discreto nos lábios. Mais uma noite de mentiras e eu sobreviveria assim como saí viva das outras.
O sufoco típico de uma boate lotada se fez presente assim que o segurança abriu a porta com um cumprimento de cabeça e nós duas podemos entrar sem precisar checar nome na lista ou se éramos celebridades mesmo. Algumas pessoas gritando nossos nomes quando nós passamos e as câmeras interessadas em cada passo dado em direção à boate eram o suficiente para informar; as mulheres chegando dominavam as mentes das pessoas ao redor e conseguiam o que desejavam com um sorriso bem delineado pelo batom. Não era minha intenção comandar a vida de ninguém, mas não podia fazer nado a respeito quando tinha tantas mentes em minha mão.
Se ao menos a mente que eu desejava de verdade pudesse ser controlada,pensei em um segundo de retorno ao começo de minha noite, mas voltando rapidamente para a realidade.
Uma música de Britney Spears tocava tão alto que eu sentia meu coração bater com força contra minhas costelas a cada batida mais pesada da canção. Às vezes a altura do som podia ser nauseante e o jogo de luzes ardia meus olhos, mas eu mantive meu passo firme e minha cabeça baixa enquanto caminhava pela multidão com o auxílio de um segurança da boate que nos levava até a área VIP.
Eu sabia que os olhos estavam sobre mim e as pessoas perguntavam o que Kristen Stewart estava fazendo a aquele horário em um clube badalado de Los Angeles. Eu era constantemente tachada de “caçadora de holofotes” por estar nos locais freqüentados em horários badalados, mas o que as pessoas não sabiam era que dentro de mim existia uma necessidade de ser cercada por pessoas estranhas em busca de apoio. Como se as vozes desconhecidas ao meu redor conseguissem calar as vozes companheiras em minha mente que sempre me diziam para deixar essa vida de vícios de lado. Tarefa difícil...
A área VIP estava menos lotada que a pista normal da boate e o novo segurança nos deixou passar com um aceno de cabeça igual ao anterior ao tirar o cordão de veludo que separava o lado exclusivo da parte ordinária. Ashley ainda estava segurando minha mão e eu a puxei enquanto nos dirigia para o bar cheio de celebridades não tão famosas como nós duas e caçadores de fama que tinham acesso aos locais onde a maioria das pessoas dominava alguma área o entretenimento. Novos olhos - esses com mais inveja do que curiosidade - caíram sobre nós duas, mas minha segurança se tornava maior na presença de um inimigo para não passar fraqueza, insegurança ou aflição. Minha mãe sempre me ensinou a não demonstrar desespero mesmo que o mundo estivesse desabando sobre minha cabeça, pois isso dava abertura para as pessoas comentarem e fazerem o que quisessem com minha imagem.
Um espaço na bancada do bar se abriu como mágica quando nós duas nos aproximamos e os homens que fizeram isso sorriram tentando conseguir algo em troca, mas o máximo que eles conseguiram foi um sorriso de volta e um “obrigada” bastante manhoso só para não passar por grossa. Estava mais que na cara que ninguém daquele lugar conseguiria algo de mim e talvez homem algum fosse capaz de arrancar mais que palavras de minha boca por um bom tempo. O tempo que fosse preciso para eu me recuperar dessa queda livre sentimental.
- O que você vai querer? - disse tentando não gritar no ouvido de Ashley.
- Uma marguerita. - ela respondeu cruzando os braços após me entregar o cartão de consumação da boate.
- Marguerita? - retruquei incrédula. - Eu não vi aqui para tomar suco! Vamos beber Absolut on Fire.
- Alguém te que voltar dirigindo.
- Chamamos um táxi. Ei! - gritei para o barman passando. - Duas doses de Absolut on Fire.
- É pra já, senhorita Stewart.
Eu sabia que estava sendo uma pentelha agindo dessa forma e que não merecia uma amiga tão paciente como Ashley, mas na mente de alguém que tinha cometido o mesmo erro de sempre e estava amargamente arrependida eu tinha o direito de fazer qualquer besteira no transcorrer da noite. Qualquer idiotice não me machucaria nem um terço do que eu já estava destruída.
O barman colocou as duas doses de Absolut em nossa frente e acendeu o isqueiro para colocar fogo na bebida. A chama azul queimou em frente aos nossos olhos como eu adorava e não hesitei em pegar um dos copos para virar o líquido aquecido em minha garganta de vez. Somente com aquela dose eu já sentia meu coração sendo remendado e percebi nos olhos de Ashley quando ela também tomou sua dose que minhas intenções para o modo de cura total seriam atendidas. Quem se importava em terminar mais uma noite bêbada se pelo menos a memória apagasse tudo o que queria?
- Outra dose? - perguntei para ela.
- Eu não quero encher minha cara hoje.
- Então, vou beber sozinha.
- Beba algo mais fraco, por favor. - ela me pediu segurando meu pulso e fazendo seu melhor olhar de piedade. - Eu concordei em vim com você e o mínimo que você pode é me prometer não ficar bêbada logo no primeiro minuto de festa.
- Tá bom, eu vou me controlar um pouco. - resmunguei revirando os olhos e soprando um beijo para ela. - Trinta minutos com apenas um martíni e eu posso beber minhas doses de Absolut on Fire novamente?
- Até a garrafa inteira se você quiser.
Quando eu me sentia mal com algo ou triste tinha que consumir a bebida mais forte ao meu alcance para anestesiar a provável dor que se alojaria em toda minha mente se eu ficasse inconsciente, então, enquanto fui obrigada a ficar apenas no martíni fraquinho que o barman preparou sob a supervisão de Ashley eu começava a tomar consciência do que estava acontecendo comigo.
Eu deixei meu ex-namorado toxicomaníaco no apartamento dele cheirando cocaína após ter transado comigo da forma mais egoísta possível. Eu saí de minha casa mais uma vez e cruzei a cidade para encontrar Jackson mesmo sabendo que o corte aberto sangrando em meu coração era inevitável. Fiz o colo de minha melhor amiga o meu travesseiro de lágrimas como em outras diversas vezes e ela me escutou, me aconselhou apesar de saber que as palavras não tinham efeito algum em minha cabeça danificada. Novamente o ciclo vicioso se repetia e eu me encontrava na mesma situação de sempre: bebendo para esquecer.
O álcool raramente entrava em meu organismo para diversão, era apenas para me fazer esquecer alguma dor, para transformar lágrimas de tristeza em risadas altas e cenas vergonhosas. Não era uma dependência, mas se formos levar em consideração o fato de que todas as vezes que eu terminei com Jackson - ou até mesmo outro namorado - foi preciso mais de uma garrafa de vodka para fazer minha cabeça parar de rodar ao redor do mesmo assunto. O modo mais fácil de deletar algum problema era o eliminando com amnésia alcoólica e definitivamente isso não era correto.
O que seria de mim daqui a alguns anos? Eu iria superar Jackson e conseguiria encontrar outro homem para me fazer sorrir sem culpa alguma e ser feliz? Deus, há quanto tempo eu não sabia o que era sorrir de uma forma que os músculos de minha face não estivessem forçados no movimento e dentro de meu peito a alegria esquentava cada célula com conforto... Eu tinha esquecido como era ser feliz por causa de alguém e meus dentes alinhados pelo melhor dentista de Los Angeles eram apenas expostos em troca de dinheiro.
Encha meu bolso que eu encherei as capas de revistas com o melhor sorriso de Kristen Stewart.
Faça os zeros em minha conta bancária aumentarem que eu esboçarei a melhor forma de vender uma marca em um piscar de olhos.
Vamos lá, preencha a máquina sanguinária de Hollywood com mais uma falsidade descomedida que o retorno é garantido: seu prazer em outro ou seu dinheiro será devolvido. Balela...
Eu era capaz de escutar meu nome sendo inúmeras vezes repetido conforme minha imagem se repetia em cada canal de televisão, em casa foto estampada em uma capa.
Kristen, Kristen, Kristen...
- Kristen?
Voltei de meu devaneio meio desnorteada quando tomei consciência de que na verdade meu nome estava sendo chamado e me virei para ver quem era. Não o reconheci logo de cara e precisei analisar um pouco sua face em meio as luzes da boate para finalmente reconhecê-lo e soltar um merda bem na parte do cérebro onde codifica o arrependimento e a vontade de ser invisível.
- Michael. - retruquei com uma falsa animação que não enganava ninguém e me garantiria um Framboesa de Ouro¹.
- Quase não te reconheci quando você passou por mim agora. Você está...
- Obrigada! - agradeci antes mesmo de ele terminar o elogio. - É bom te ver.
- Pois é. Estou tentando falar com você desde a última vez que nós nos encontramos, mas parece que você anda muito ocupada segundo sua agente.
- Sabe como é. Divulgação de Breaking Dawn chegando e eu quase não tenho tempo para respirar.
- Mas você sempre arranja um tempinho para se divertir, não é mesmo? - ele comentou piscando e eu me arrepiei de nojo daquele ato. - Não é atoa que te chamam de Party Stew.
- Quem me chama assim? - retruquei incrédula com o fato.
- Toda a mídia, oras. Você não acompanha o que dizem sobre você? Em qualquer lugar que você digitar “Kristen Stewart” irá aparecer alguma foto sua em uma festa e um comentário sobre como você sempre está em boates. Acho até que se você digitar seu nome no Google irá aparecer “Você quis dizer Party Stew”.
A risada que ele acrescentou a aquela piada foi o fim para mim. Eu sabia que saía demais, escutava isso todos os dias de meus pais, amigos e entourage², mas um atorzinho de merda se referir a mim como apenas uma garota que cai na balada demais era inadmissível. Kristen Stewart não era apenas uma garota de festas e eu ralei muito em anos de profissão para chegar aonde eu cheguei.
- Escute aqui, Angarano. - falei o empurrando pelo peito e avançando com raiva nos olhos. - Sua tentativa de ser engraçadinho foi patética, ok? E você deveria saber que eu sou mais que uma celebridade caçando holofotes porque enquanto você estava correndo atrás de uma agência corajosa para te lançar às cegas no mercado eu estava sendo considerada a revelação da década com apenas treze anos.
- Eu...
- Calado, ainda não terminei. - minha raiva só aumentava. - Eu trabalho desde os cinco anos de idade com cinema, eu já fiz filmes com Sean Penn e Robert De Niro. Eu fui a primeira e única escolha para carregar a porra de uma série milionária nas costas e a diretora disse que o filme não seria feito se eu não aceitasse. O nome de quem foi indicado para melhor atriz coadjuvante no Golden Globe desse ano?
- O seu...
- E quem levou a porra do prêmio para casa?
- Você...
- E quem foi injustamente deixada de lado do Oscar porque o papel era polêmico demais mesmo todos os críticos internacionais dizendo que não haveria escolha melhor para o prêmio?
- Você...
- Então, coloque uma coisa em sua cabeça gigante: eu sou uma atriz de verdade enquanto você abre a boca para dizer meia dúzia de falas e acha que está atuando. Portanto, eu sou a pessoa que mais tem o direito de sair todas as noites e encher a cara de bebida porque não estou nesse mundo a passeio. Eu sou uma estrela de verdade, Angarano. Diga isso para o mundo escutar.
- Você é uma estrela de verdade, Kristen. - ele murmurou em redenção, mas sua falta de personalidade só me enojou mais ainda e eu o empurrei para longe.
Eu poderia o ter estapeado por ter feito uma piada com minha imagem, mas minha surra de palavras e verdades valeu muito mais que um soco naquela cara estranha. Meu ego se recompôs ao ver o olhar de espanto dele enquanto as frases jorravam de minha boca, mas eu não pararia até alcançar minha meta: colocar na cabeça de mais um imbecil no mundo que eu faria história por meu trabalho, não por minha vida pessoal. Um dia as pessoas não se importariam com quem eu estava transado e iriam olhar apenas para que filme eu estava lançando.
Mas enquanto isso eu teria que surrar mais algumas pessoas dignas de pena pelo caminho. Ossos do ofício.
Minha noite morreu com aquele encontro miserável. Eu aceitava ser usada por um ex-namorado louco, ser criticada por meus amigos, mas meu sangue fervia quando alguém mexia com minha profissão. Fale o que quiser de mim, porém, tenha cuidado quando tocar no assunto “carreira” porque eu não deixei minha pacata vida em Nashville e me joguei nessa selva insana chamada Hollywood só para ter status como celebridade festeira. Eu iria construir meu nome no mundo do cinema, eu iria ser lembrada como uma das mais jovens atrizes a levar prêmios importantes, como a melhor de minha geração. Eu não seria passageira como muita gente desejava.
Nem vi Ashley me gritando quando passei como um flash por onde ela estava conversando com alguém que eu não reconheci no momento, mas eu precisava sair dali, precisava me trancar em meu quarto e adormecer tentando não sonhar mais uma vez que eu caia de um penhasco por causa de uma perseguição de fotógrafos.
Mas seria impossível não sonhar com isso quando eu deixei a boate e me deparei com a multidão a minha esperada. Os flashes pipocaram em questão de segundos e a gritaria deu início. Eu não conseguia distinguir os pedidos de sorriso, as questões sobre minha noite e nem queria. Queria ser surda para não escutar as grosserias contra mim, ser cega para não saber com convicção que minha imagem estava sendo distorcida pelas lentes. Na verdade, queria ser invisível e só precisar aparecer para executar meu trabalho assim eu não teria metade dos meus problemas.
- Seu carro está virando a esquina, senhorita. Mas irá demorar um pouco para o manobrista fazer a volta no quarteirão. - um dos manobristas me disse quando eu o entreguei o bilhete para pegar meu carro.
Eu não tinha tempo para esperar enquanto a carnificina já tinha começado. Em dez minutos parada na porta da boate eu já tinha garantido dez fotos no Pop Sugar, dois comentários maldosos no Perez Hilton e um destaque na home do Just Jared. E tudo que eu queria era ir para casa em paz e poder colocar um ponto final na confusão que foi minha noite e ainda estava sendo. Eu precisava sair dali, nem que para isso precisasse cometer alguma burrice.
- Eu não posso esperar. - falei pegando a chave em sua mão e o deixando para trás.
- Senhorita! - o homem me gritou, talvez tentando me alertar do perigo que eu estava correndo, mas era tarde.
Naquele momento eu já estava me enfiando no meio da multidão e sendo engolida pelas feras.
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¹ Framboesa de Ouro: prêmio dos piores do ano, geralmente divulgado dias antes do Oscar.
² Entourage: grupo de pessoas que seguem ou ajudam um artista. Pode incluir RP, segurança, maquiador, stylist e etc.