domingo, 13 de junho de 2010

6 - But he took me home instead…


Monster

A sensação era como se eu tivesse mergulhado em um mar revolto e a força da água me puxasse para baixo. O ar me escapava dos pulmões a cada onda de flashes que batia em meu rosto e o zumbido em meus ouvidos me deixava enjoada. Não seria estranho se eu me curvasse sobre a calçada e vomitasse uma cascata de desespero, batendo meus joelhos no concreto, abrindo novas feridas na pele que refletiam as feridas internas. Uma foto falava por mil palavras e eu seria acusada de embriaguez pós-balada, destaque em todos os canais de comunicação que tinham interesse em minha jornada. Mais ninguém sabia o que me fez cometer um ato insano e me meter no meio de um grupo de fotógrafos famintos. Eu seria o jantar especial da noite, o prato principal de um banquete e a digestão seria maravilhosa. Bolsos cheios de dólares conseqüentes de fotos únicas de uma atriz na madrugada louca de Los Angeles.

Havia no mínimo uns cincos fotógrafos perto demais de mim e suas câmeras estavam a centímetros de meu rosto, algumas até batendo em meu ombro e outras partes de meu corpo. Eu tentava cobrir minha face com a bolsa, mas o restante de minha imagem estava vulnerável a ser captura da maneira que eles quisessem a cada click que eu distinguia dos gritos. Eu era um quadro branco pintado com as tintas disponíveis e por mãos frenéticas, ou seja, amanhã eu seria um borrão do meu verdadeiro eu. Nenhuma imagem mostraria a verdadeira Kristen afundada em seu desespero.

O que eles diziam não fazia o menor sentido, mas pelo menos eu estava andando. Eu avançava às cegas em direção a lugar nenhum, fugindo de uma dor e chegando aos poucos em uma pior. Me fazia sangrar hemorragicamente saber que ninguém ali me conhecia direito, mas se achava no direito de apontar o dedo e indicar minhas falhas. Eles não eram os verdadeiros julgadores de meu caso, mas eu havia ido à Júri Público e esperaria a sentença sem poder reivindicar algo que me era direito; privacidade. Não foi uma vida pública que eu escolhi? Arque com as conseqüências, atriz de milhões de dólares.

- Um sorriso, Kristen. - gritaram com desejo.

“Não há motivo para sorrir, perdão”

- Onde está Ashley?

“Em uma situação melhor que a minha”

- É verdade que você e o Jackson voltaram?

“Como é...”, mas antes que eu pudesse concluir meu raciocínio a multidão aumentou. Como se tivessem aberto um bueiro e as baratas corressem loucamente em busca de algo para infectar. Queria seria o alvo mais fácil? A atriz fragilizada com imunidade baixa. Eu não tinha mais como prosseguir nem como voltar, estava presa e cercada por Canons profissionais e ágeis, por homens de camisa de flanela e boné virado para trás. Cada piscada cheia de pânico que eu dava era registrada e eu podia ver que eles estavam “quase lá” por minha causa. Melhor que um orgasmo sexual era ter um orgasmo monetário com as fotos milionárias que minha imagem gerava. Mas eles seriam os únicos a gozarem naquela noite, pois o máximo de demonstração de sentimento que eu teria seriam as lágrimas inundando meu rosto quando eu estivesse em casa segura e viva.

Sair viva e segura parecia impossível e meu desespero aumentou quando avistei meu carro na esquina, mas eu não podia utilizá-lo para minha fuga ideal do inferno fotográfico. Estava a apenas alguns passos dele e o aperto das pessoas ao meu redor aumentava impossivelmente, os homens com câmeras pareciam se materializar do nada só para me deixar em uma situação pior. Eu queria gritar, mandar cada monstro daqueles se foder, correr para longe, me encolher no canto de uma parede e chorar até secar. Seria taxada de louca, claro, mas minhas loucuras não poderiam ser entendidas por ninguém além de minha mente, a única que sofria junto comigo e com meu coração a cada flash que atingia minha imagem.

Foi então que surgiu algo que me salvou. Eu tinha parado no meio da calçada por ser incapaz de continuar andando com aquela multidão ao meu redor e estava pronta para desistir quando um casaco frio foi jogado sobre minha cabeça e eu senti um braço forte me segurar pela cintura.

- Eu vou te tirar daqui. - meu salvador disse em meu ouvido. - Me dê a chave de seu carro.

- O quê... - falei tentando tirar o casaco de minha cabeça para ver quem me ajudava, mas ele me impediu.

- Ainda não. Me dê a chave de seu carro que eu te levo para algum lugar seguro.

- Na minha bolsa. - disse o entregando a bolsa pequena e voltando a caminhar com a ajuda dele.

Com aquela proteção nós conseguimos avançar e eu me sentia mais segura, como se não estivesse mais ali ou aquele casaco sobre mim me deixasse invisível. Certamente os fotógrafos estavam mais interessados no homem que ajudava uma das atrizes mais famosas dos últimos tempos e eu não era o alvo dos flashes pela primeira vez em muito tempo. Não importava com quem eu estava ou o que a outra pessoa estava fazendo, as câmeras sempre seguiam os movimentos de Kristen Stewart e naquele momento eu pude sentir o que era não ser o centro das atenções. Estranho, mas longe de ser uma sensação ruim.

Pude ver que nós chegamos ao meu carro e meu salvador pediu que eu esperasse ao lado da porta do passageiro enquanto ele destravava e me permitia entrar. Sentei no banco de couro puxando o casaco para me proteger das lentes já que os vidros do carro não podiam ser negros o suficiente e em pouco tempo escutei o motor dando partida e os pneus atritando contra o asfalto quando nós escapamos do circo armado na porta da boate e eu pude respirar aliviada.

- Acho que você já pode tirar o casaco. - ele sugeriu em um murmuro abafado pela potência do motor do carro.

Debaixo do casaco era seguro, eu me sentia no casulo de aço impenetrável que fazia falta quando eu caminhava pelas ruas de LA e praticamente esbarrava com um homem portando uma câmera a cada esquina, mas minha imagem de psicótica-dramática só iria aumentar se eu resolvesse me esconder para sempre sob o casaco de um estranho, então resolvi me livrar dele e ver qual a face do meu salvador. O que eu não esperava era encontrar a personificação de homem dos sonhos na terra e em minha frente.

Ele ligou a seta dando sinal para a direita antes de viramos a esquina e eu percebi como seus dedos eram longos e esculpidos, combinando com sua mão grande que segurava o volante com firmeza. Meus olhos analisaram sua face de lado para mim, o maxilar marcado coberto por uma barba não muito espessa de pêlos grossos e o nariz levemente torto, descendo para seus lábios apertados em uma linha dura e sua expressão de seriedade enquanto fitava a rua. Ele notou que estava sendo analisado por mim e virou o rosto para me encarar sério, me lançando olhos azuis capazes de congelar qualquer pessoa tamanha era a frieza que eles passavam.

Mas antes que eu pudesse abrir minha boca para pergunta como, quando, onde e por quê, ele virou outra esquina, acelerou para o estacionamento vazio de um posto de gasolina abandonado e parou o carro bruscamente. Desligou-o, tirou a chave da ignição e me entregou dando um sorriso de canto.

- Ei, espere! - gritei o seguindo quando ele deixou o carro.

- Algum problema? - ele perguntou enquanto discava algo no celular.

- Quem é você? Por que você fez isso? - desembuchei a perguntar sem freio. - Como você aparece no meio do nada e me tira de lá?

- Eu não deveria fazer isso? - ele retrucou com as sobrancelhas unidas em uma expressão de dúvida. - Você me parecia em perigoso, mas acho que fiz errado em te ajudar, não é?

- Não. É só que... eu não esperava.

- Isso se chama surpresa, está no dicionário.

- Ei! - o repreendi irritada com sua atitude. - Quem você pensa que é para falar assim comigo?

- Desculpe, mas eu te ajudei e o mínimo que você me deve é um agradecimento.

- Eu ia te agradecer.

- Ótimo. Ajuda a limpar sua imagem de grossa com as pessoas.

Eu já estava pronta para retrucar aquela acusação quando uma moto surgiu do nada e estacionou em nossa frente. O motociclista tirou o capacete e revelou um cara de minha idade de olhos bem azuis, pele muito branca e cabelo negro jogado em franja sobre seus olhos.

- Já estava te ligando, cara. - meu salvador disse se aproximando dele. - Pegou minha mochila?

- O Bobby levou. - o homem respondeu. - Vamos. Miley Cyrus bêbada na saída da Viper Room. O Sam acaba de me passar a informação.

- Excelente. - ele sorriu pegando o capacete e enfiando a cabeça.

- Espere! - gritei com passos apressados em direção aos dois. - Qual o seu nome?

- Pattinson. - ele respondeu abrindo a viseira do capacete e me fitando com seus olhos levemente apertados. - Robert Pattinson.

- Eu sou...

- Eu sei quem você é. - Robert Pattinson me disse e fechou a viseira.

Seu amigo acelerou com a moto e os dois desapareceram em questão de segundos, me deixando sozinha em um posto de gasolina abandonado e em uma rua perigosa. Me apressei para entrar em meu carro e segurei o volante com as duas mãos apertando a proteção de couro enquanto respirava fundo para assimilar tudo o que ocorreu comigo desde que eu sai de casa. Nada tinha saído como o planejado e minha vida tinha dado um giro louco e parado em posições inesperadas. Eu tinha deixado um ex-namorado para trás - novamente - e tinha enfrentado uma multidão de paparazzis. Pior que isso; eu tinha confiado em um deles.

Robert Pattinson

Seu nome deveria soar como xingamento em minha mente e eu jamais ousaria falá-lo em voz alta por se tratar de mais um, só que sua atitude tinha mexido comigo. A pobre atriz desolada tinha encontrado salvação na mão de seu algoz. Irônico, não? No mínimo piegas...

It took a life span and no cellmate to long way back…

Interpol tocando em meu celular me despertou do susto pós-revelação da identidade de meu salvador e eu joguei o conteúdo de minha bolsa no banco para procurá-lo. O nome de Ashley piscava na tela junto com nossa foto nos bastidores de algum filme da saga e eu respirei fundo já esperando a gritaria que seria sua ligação.

- Onde você se meteu? - ela bradou antes que eu dissesse “oi”.

- Tive alguns problemas...

- Todo mundo na Trash estava comentando que você foi cercada por paparazzis na porta e depois desapareceu. Que merda você fez, Kristen?

- Por que tem que ser minha culpa, hein? - retruquei indignada com minha fama de procurar confusão.

- Porque só você é louca o suficiente para sair sem segurança de uma boate que vive cheia de fotógrafos na porta. Você poderia ter se machucado, sei lá. Já parou alguma vez para pensar nas conseqüências de seus surtos psicóticos?

- Alguém me ajudou, não se preocupe. Eu estou bem

- Onde você está?

- Em um posto de gasolina abandonado. - respondi olhando ao meu redor. - E você?

- Encontrei Kellan na saída da Trash e ele me trouxe em casa. Quer que a gente vá te pegar aí?

- O Kellan está aí?

- Não comece, Kristen. Nós somos amigos, apenas isso.

- Aham, sei... Também quero um amigo que me dê orgasmos quando eu preciso. - a provoquei sabendo de seu passado com ele nos trailers enquanto filmávamos a saga. - Não precisa se preocupar comigo. Eu vou para casa.

- Tem certeza? Você pode dormir aqui se quiser.

- Absoluta. Eu quero ficar sozinha, A.

- Qualquer coisa pode me ligar que eu vou ficar com você.

- Vá montar em seu monkey man que eu sobrevivo uma noite sozinha. Te amo, Alice.

- Te amo, Bella.

Eu não iria empatar a foda de minha amiga, ainda mais porque ela estava uns bons quatro meses sem transar com ninguém e um pé no saco de tão necessitada. Além do mais, eu precisava de silêncio, escuridão, Léo Ferré tocando baixo em meu sistema de som e um maço de Parliament para colocar as coisas no lugar. Avec le temp, va, tout s’en va¹, diria o poeta francês que embalaria meus pensamentos. E eu realmente esperava que com o tempo as coisas se encaixassem e eu entendesse que merda aconteceu comigo aquela noite.


***


¹ Com o tempo passa, tudo vai...

5 - I'm not loose, I like to party…


Boys Boys Boys

Mais um soluço preencheu o pequeno apartamento silencioso de Ashley e eu funguei alto para impedir de inundar suas coxas mais ainda com minhas lágrimas. Ela acariciava meu cabelo enquanto eu permanecia com a cabeça sobre seu colo e meu corpo encolhido como uma bola no sofá confortável demais para que eu quisesse deixá-lo. Era como um abraço apertado no meio de uma crise de choro e eu me sentia ridícula por gostar do conforto de uma móvel como deveria gostar de uma carícia humana, mas meu corpo não conseguia responder a mais nada vindo de ninguém depois de tanto esfolamento seguida.

- Eu me odeio. - falei apertando a coxa de Ashley sem força, mas em busca de algum apoio. - Eu sou a maior idiota do mundo.

- Você não é idiota, Kristen. - Ashley disse com um tom cheio de tédio por ser a centésima vez que nós tínhamos aquele diálogo em menos de um ano. - Você só está cega de amor.

- Como é possível alguém amar um filho da puta como o Jackson é? - perguntei erguendo minha cabeça e me ajeitando para sentar no sofá. - De todos os homens no mundo, por que eu tinha que amar justamente o que me faz mal?

- Esse é o tipo de mistério de ninguém irá resolver. Jackson era o que nós achávamos ser o homem perfeito no começo do relacionamento, mas a máscara dele caiu e você percebeu como alguém tão afundado em drogas pode ser um transtorno na vida de qualquer pessoa.

- Eu acreditei que ele me amava, que ele fosse mudar todas as vezes que disse que largaria o pó por minha causa. - murmurei passando minha mão por meu cabelo cheio de nós e bufando de raiva.

- Kristen, você realmente achou que ele fosse largar o pó? - Ashley perguntou erguendo uma sobrancelha bem delineada. - O Jackson está mais fudido que nunca. Ele jamais largará o pó, especialmente por sua causa já que você faz questão de estar sempre presente quando ele quer.

Era a pura verdade e não me machucava mais. Eu já conseguia enxergar como eu era uma mulher burra por correr como um cão adestrado para o dono ao ouvir um estalar de dedos e obedecer ao seu pedido. Jackson batia o chicote contra o chão e eu abanava o rabinho feliz com a dor que o ato causava, pois isso significava que por alguns míseros minutos eu o escutei dizer que me pertencia e que eu o fazia completo. Mas era uma completa mentira e eu a sustentei por tempo demais, passando até mesmo da hora de enxergar como eu estava mais morta do que viva na sua companhia.

- Eu não mais deixar que ele me foda dessa forma. - falei ficando em pé e passando a mão pelos olhos para limpar qualquer resquício de lágrimas. - Não vou continuar sofrendo por causa dele.

- Eu realmente queria acreditar em suas palavras, mas já te vi dizer isso e correr de volta pra ele sem pensar duas vezes. - Ashley me disse com voz de pena e eu não pude reivindicar, pois eu realmente era digna de pena.

Uma mulher que deixava um homem lhe roubar o juízo e não fazia nada a respeito não merecia mais viver dignamente. Minha dignidade já tinha perdido o prazo de validade há muito tempo.

- Dessa vez eu vou conseguir esquecer todo o mal que Jackson já me causou. - proferi com a esperança latejando em meu peito. - E eu vou começar isso agora.

- Como? - ela perguntou desconfiada.

- Fazendo o que faço de melhor. - respondi dando um sorriso de canto e caminhando para fora da sala.

- Não, não, não. - eu escutei Ashley protestar enquanto me seguia até seu quarto. - Eu não vou deixar você sair agora e encher a cara por causa do Jackson.

Mas eu tinha tomado uma decisão e estava determinada em sair daquele apartamento com a intenção de afogar minhas malditas mágoas em litros de champanhe ou em doses de vodka, não importa. Eu realmente estava precisando me perder no álcool e esquecer que o começo da minha noite se deu com mais uma vez eu me entregando a dor de amar um canalha. Ninguém iria me impedir, nem que para isso eu tivesse que ir sozinha a alguma boate.

- Por favor, Kristen. - Ashley pediu parando ao meu lado e me observando abrir sua malinha de maquiagem. - Nós podemos assistir a um filme, tomar umas margaritas e falar sobre o Jackson até você cansar.

- Eu não quero falar sobre o Jackson nem fazer programa de adolescente com o coração quebrado. - falei ríspida a olhando através do espelho. - Eu tenho vinte e um anos e vou agir como qualquer mulher de vinte e um anos após terminar um relacionamento.

- Nem todas as mulheres de vinte e um anos têm milhares de fotógrafos desejando uma foto saindo bêbada de uma boate. O que Nikki acha disso, hein?

- Dane-se Nikki, danem-se todos. - respondi irritada e abrindo o rímel sem delicadeza. - Eu vou sair, com você ou sem você.

Ashley bufou e cruzou os braços ao sentar na sua cama atrás de onde eu estava sentada para me maquiar. Ela sempre tentava me impedir de sair e de me expor ainda mais para minha imagem de party girl não ficar pior e eu reconhecia essa demonstração de amizade, mas eu não mudaria de idéia. O final de minha noite seria caindo novamente bêbada em minha cama e esquecendo que merda eu tinha decidido fazer.

- Você acha que a Trash vai estar lotada uma hora dessas? - comentei com a intenção de atiçá-la para sair comigo.

- É bem provável, mas você é Kristen Stewart. Qualquer lugar irá te deixar entrar até com vinte pessoas. - ela retrucou sem vontade.

- Não vou levar vinte pessoas. Só uma talvez...

- É muito tarde para sair e você sabe disso.

- Nunca é tarde demais para sair e você sabe disso. Não estou te reconhecendo, Ashley. Você costumava adorar sair comigo, nunca recusava um convite e agora está parecendo uma velha chata que prefere ficar em casa.

- Eu estou sem humor para me arrumar e ter que encarar uma pista lotada de gente suada, de atores em ascensão tentando te comer para conseguir alguma fama.

- Vai dizer que você não gosta?! Faz bem para o ego, boba. - ri passando mais um pouco de blush nas maçãs de meu rosto e analisando o retoque na maquiagem. - Ah, Ashley. Eu prometo que essa é a última vez que eu te chamo para sair.

- Duvido. Eu te conheço bem, Kristen. Semana que vem você tá me ligando para cair na balada.

- Já que você não quer ir, posso pegar seu vestido Chanel emprestado? - perguntei entrando no closet e sorrindo por saber que em menos de cinco segundos ela me seguiria gritando:

- Não, o Chanel não.

Ashley se colocou entre a arara onde o vestido estava e eu abrindo os braços de modo teatral para me impedir de pegar seu Chanel colorido simplesmente perfeito que ela usou na divulgação de Eclipse. Eu sabia que aquele vestido era seu xodó entre os outros que ganhou dos estilistas para viajar a Europa na divulgação, então, sabia que era um ótimo objeto para chantagem.

- Você pode pegar qualquer vestido, mas o Chanel fica.

- Você tem que escolher: ou me empresta o Chanel ou vai comigo.

- Ah Kristen. Não me faça escolher. - ela choramingou, mas eu apenas cruzei meus braços e bati meu salto no chão.

- Escolha senão eu vou pegar o Chanel de qualquer forma e ainda vou derrubar bebida nele.

- Tá, eu vou com você. - ela desistiu e bufou alto.

Dei alguns pulos de alegria e apertei o pescoço de Ashley enquanto enchia sua bochecha de beijos. Eu sabia que minha melhor amiga não me abandonaria em uma sessão de exorcismo sentimental regrada a muita bebida, até porque alguém precisava dirigir quando eu saísse bêbada e sem recordar até mesmo meu próprio nome. Ashley sabia que eu sempre precisava de auxílio nas situações descomedidas de minha vida e como uma excelente amiga ela não me deixaria sem o amparo necessário.

Conseguimos deixar seu pequeno apartamento após meia hora que ela levou para se arrumar, obviamente usando o Chanel só para esfregar em minha cara quem tinha o poder de usar o vestido, mas eu não estava interessada em roupas naquela noite. Eu queria uma garrafa da vodka mais forte com algumas rodelas de limão para limpar o pecado de minha mente e deixar para trás junto com o vômito no final da noite a sensação de burrice. Eu tinha a plena certeza de que choraria muito por ter cedido mais uma vez a Jackson se ficasse sozinha e em casa, então, a melhor solução para evitar outra crise dolorosa seria esconder minha dor com a máscara de Hollywood. A fama trazia o poder de mentir com as palavras e nos sentimentos.

A porta da boate Trash estava cheia de pessoas tentando entrar e de paparazzis registrando a chegada e saída de celebridades. O olhar de Ashley enquanto analisava a rua movimentada indicava que ela preferia muito mais estar em casa vendo algum filme e tomando sorvete, mas meu sorriso não morreu com a provável confusão que causaria quando pisasse fora do meu carro e mais uma vez Kristen Stewart fosse vista na noite hollywoodiana. Quando as portas da boate se fechassem e as lentes ficassem do lado de fora eu poderia curtir a fossa da minha maneira.

- Você não quer mudar de idéia? - Ashley me perguntou quando parei na entrada da boate e um manobrista se aproximou de minha porta. - Têm muitos fotógrafos aqui hoje.

- Têm muitos fotógrafos em qualquer lugar de LA, Ash. - ignorei seu pensamento e desliguei o carro. - Eu vou entrar na Trash e vou curtir como eu planejei.

- E eu não vou te deixar sozinha justamente agora. - ela se rendeu e segurou a maçaneta para abrir a porta, mas eu segurei sua mão.

- Obrigada por estar do meu lado sempre. - murmurei com um sorriso bobo e beijando seu rosto com carinho.

- Alguém tem que te segurar às vezes, sabe?

Sabia. E eu agradeci muito por essa pessoa ser Ashley, pois eu tinha a certeza de que ela era a única que me entendia como eu era e não julgava minhas atitudes de uma mulher burra ou louca. Eu era uma mulher como qualquer outra e meu coração poderia se quebrar facilmente como o de qualquer outra mulher.

- Boa noite, senhorita Stewart. - o manobrista disse quando entreguei minha chave. - Seja bem vinda à Trash.

- Obrigada.

Ter seu rosto estampado em todos os outdoors e a nação inteira saber quem você é era sem dúvida uma vantagens nesses momentos, mas assim que o primeiro flash disparou me cegando eu senti o arrependimento tomar conta de mim. Como uma onda de suor banhando meu corpo. Eu senti o famoso “medo de me expor” me dominando conforme os flashes aumentavam e os gritos me deixavam surda, mas não voltaria para o carro e me esconderia. Minha cabeça se manteve erguida enquanto eu segurava a mão de Ashley e atravessava a multidão com um sorriso discreto nos lábios. Mais uma noite de mentiras e eu sobreviveria assim como saí viva das outras.

O sufoco típico de uma boate lotada se fez presente assim que o segurança abriu a porta com um cumprimento de cabeça e nós duas podemos entrar sem precisar checar nome na lista ou se éramos celebridades mesmo. Algumas pessoas gritando nossos nomes quando nós passamos e as câmeras interessadas em cada passo dado em direção à boate eram o suficiente para informar; as mulheres chegando dominavam as mentes das pessoas ao redor e conseguiam o que desejavam com um sorriso bem delineado pelo batom. Não era minha intenção comandar a vida de ninguém, mas não podia fazer nado a respeito quando tinha tantas mentes em minha mão.

Se ao menos a mente que eu desejava de verdade pudesse ser controlada,pensei em um segundo de retorno ao começo de minha noite, mas voltando rapidamente para a realidade.

Uma música de Britney Spears tocava tão alto que eu sentia meu coração bater com força contra minhas costelas a cada batida mais pesada da canção. Às vezes a altura do som podia ser nauseante e o jogo de luzes ardia meus olhos, mas eu mantive meu passo firme e minha cabeça baixa enquanto caminhava pela multidão com o auxílio de um segurança da boate que nos levava até a área VIP.

Eu sabia que os olhos estavam sobre mim e as pessoas perguntavam o que Kristen Stewart estava fazendo a aquele horário em um clube badalado de Los Angeles. Eu era constantemente tachada de “caçadora de holofotes” por estar nos locais freqüentados em horários badalados, mas o que as pessoas não sabiam era que dentro de mim existia uma necessidade de ser cercada por pessoas estranhas em busca de apoio. Como se as vozes desconhecidas ao meu redor conseguissem calar as vozes companheiras em minha mente que sempre me diziam para deixar essa vida de vícios de lado. Tarefa difícil...

A área VIP estava menos lotada que a pista normal da boate e o novo segurança nos deixou passar com um aceno de cabeça igual ao anterior ao tirar o cordão de veludo que separava o lado exclusivo da parte ordinária. Ashley ainda estava segurando minha mão e eu a puxei enquanto nos dirigia para o bar cheio de celebridades não tão famosas como nós duas e caçadores de fama que tinham acesso aos locais onde a maioria das pessoas dominava alguma área o entretenimento. Novos olhos - esses com mais inveja do que curiosidade - caíram sobre nós duas, mas minha segurança se tornava maior na presença de um inimigo para não passar fraqueza, insegurança ou aflição. Minha mãe sempre me ensinou a não demonstrar desespero mesmo que o mundo estivesse desabando sobre minha cabeça, pois isso dava abertura para as pessoas comentarem e fazerem o que quisessem com minha imagem.

Um espaço na bancada do bar se abriu como mágica quando nós duas nos aproximamos e os homens que fizeram isso sorriram tentando conseguir algo em troca, mas o máximo que eles conseguiram foi um sorriso de volta e um “obrigada” bastante manhoso só para não passar por grossa. Estava mais que na cara que ninguém daquele lugar conseguiria algo de mim e talvez homem algum fosse capaz de arrancar mais que palavras de minha boca por um bom tempo. O tempo que fosse preciso para eu me recuperar dessa queda livre sentimental.

- O que você vai querer? - disse tentando não gritar no ouvido de Ashley.

- Uma marguerita. - ela respondeu cruzando os braços após me entregar o cartão de consumação da boate.

- Marguerita? - retruquei incrédula. - Eu não vi aqui para tomar suco! Vamos beber Absolut on Fire.

- Alguém te que voltar dirigindo.

- Chamamos um táxi. Ei! - gritei para o barman passando. - Duas doses de Absolut on Fire.

- É pra já, senhorita Stewart.

Eu sabia que estava sendo uma pentelha agindo dessa forma e que não merecia uma amiga tão paciente como Ashley, mas na mente de alguém que tinha cometido o mesmo erro de sempre e estava amargamente arrependida eu tinha o direito de fazer qualquer besteira no transcorrer da noite. Qualquer idiotice não me machucaria nem um terço do que eu já estava destruída.

O barman colocou as duas doses de Absolut em nossa frente e acendeu o isqueiro para colocar fogo na bebida. A chama azul queimou em frente aos nossos olhos como eu adorava e não hesitei em pegar um dos copos para virar o líquido aquecido em minha garganta de vez. Somente com aquela dose eu já sentia meu coração sendo remendado e percebi nos olhos de Ashley quando ela também tomou sua dose que minhas intenções para o modo de cura total seriam atendidas. Quem se importava em terminar mais uma noite bêbada se pelo menos a memória apagasse tudo o que queria?

- Outra dose? - perguntei para ela.

- Eu não quero encher minha cara hoje.

- Então, vou beber sozinha.

- Beba algo mais fraco, por favor. - ela me pediu segurando meu pulso e fazendo seu melhor olhar de piedade. - Eu concordei em vim com você e o mínimo que você pode é me prometer não ficar bêbada logo no primeiro minuto de festa.

- Tá bom, eu vou me controlar um pouco. - resmunguei revirando os olhos e soprando um beijo para ela. - Trinta minutos com apenas um martíni e eu posso beber minhas doses de Absolut on Fire novamente?

- Até a garrafa inteira se você quiser.

Quando eu me sentia mal com algo ou triste tinha que consumir a bebida mais forte ao meu alcance para anestesiar a provável dor que se alojaria em toda minha mente se eu ficasse inconsciente, então, enquanto fui obrigada a ficar apenas no martíni fraquinho que o barman preparou sob a supervisão de Ashley eu começava a tomar consciência do que estava acontecendo comigo.

Eu deixei meu ex-namorado toxicomaníaco no apartamento dele cheirando cocaína após ter transado comigo da forma mais egoísta possível. Eu saí de minha casa mais uma vez e cruzei a cidade para encontrar Jackson mesmo sabendo que o corte aberto sangrando em meu coração era inevitável. Fiz o colo de minha melhor amiga o meu travesseiro de lágrimas como em outras diversas vezes e ela me escutou, me aconselhou apesar de saber que as palavras não tinham efeito algum em minha cabeça danificada. Novamente o ciclo vicioso se repetia e eu me encontrava na mesma situação de sempre: bebendo para esquecer.

O álcool raramente entrava em meu organismo para diversão, era apenas para me fazer esquecer alguma dor, para transformar lágrimas de tristeza em risadas altas e cenas vergonhosas. Não era uma dependência, mas se formos levar em consideração o fato de que todas as vezes que eu terminei com Jackson - ou até mesmo outro namorado - foi preciso mais de uma garrafa de vodka para fazer minha cabeça parar de rodar ao redor do mesmo assunto. O modo mais fácil de deletar algum problema era o eliminando com amnésia alcoólica e definitivamente isso não era correto.

O que seria de mim daqui a alguns anos? Eu iria superar Jackson e conseguiria encontrar outro homem para me fazer sorrir sem culpa alguma e ser feliz? Deus, há quanto tempo eu não sabia o que era sorrir de uma forma que os músculos de minha face não estivessem forçados no movimento e dentro de meu peito a alegria esquentava cada célula com conforto... Eu tinha esquecido como era ser feliz por causa de alguém e meus dentes alinhados pelo melhor dentista de Los Angeles eram apenas expostos em troca de dinheiro.

Encha meu bolso que eu encherei as capas de revistas com o melhor sorriso de Kristen Stewart.

Faça os zeros em minha conta bancária aumentarem que eu esboçarei a melhor forma de vender uma marca em um piscar de olhos.

Vamos lá, preencha a máquina sanguinária de Hollywood com mais uma falsidade descomedida que o retorno é garantido: seu prazer em outro ou seu dinheiro será devolvido. Balela...

Eu era capaz de escutar meu nome sendo inúmeras vezes repetido conforme minha imagem se repetia em cada canal de televisão, em casa foto estampada em uma capa.

Kristen, Kristen, Kristen...

- Kristen?

Voltei de meu devaneio meio desnorteada quando tomei consciência de que na verdade meu nome estava sendo chamado e me virei para ver quem era. Não o reconheci logo de cara e precisei analisar um pouco sua face em meio as luzes da boate para finalmente reconhecê-lo e soltar um merda bem na parte do cérebro onde codifica o arrependimento e a vontade de ser invisível.

- Michael. - retruquei com uma falsa animação que não enganava ninguém e me garantiria um Framboesa de Ouro¹.

- Quase não te reconheci quando você passou por mim agora. Você está...

- Obrigada! - agradeci antes mesmo de ele terminar o elogio. - É bom te ver.

- Pois é. Estou tentando falar com você desde a última vez que nós nos encontramos, mas parece que você anda muito ocupada segundo sua agente.

- Sabe como é. Divulgação de Breaking Dawn chegando e eu quase não tenho tempo para respirar.

- Mas você sempre arranja um tempinho para se divertir, não é mesmo? - ele comentou piscando e eu me arrepiei de nojo daquele ato. - Não é atoa que te chamam de Party Stew.

- Quem me chama assim? - retruquei incrédula com o fato.

- Toda a mídia, oras. Você não acompanha o que dizem sobre você? Em qualquer lugar que você digitar “Kristen Stewart” irá aparecer alguma foto sua em uma festa e um comentário sobre como você sempre está em boates. Acho até que se você digitar seu nome no Google irá aparecer “Você quis dizer Party Stew”.

A risada que ele acrescentou a aquela piada foi o fim para mim. Eu sabia que saía demais, escutava isso todos os dias de meus pais, amigos e entourage², mas um atorzinho de merda se referir a mim como apenas uma garota que cai na balada demais era inadmissível. Kristen Stewart não era apenas uma garota de festas e eu ralei muito em anos de profissão para chegar aonde eu cheguei.

- Escute aqui, Angarano. - falei o empurrando pelo peito e avançando com raiva nos olhos. - Sua tentativa de ser engraçadinho foi patética, ok? E você deveria saber que eu sou mais que uma celebridade caçando holofotes porque enquanto você estava correndo atrás de uma agência corajosa para te lançar às cegas no mercado eu estava sendo considerada a revelação da década com apenas treze anos.

- Eu...

- Calado, ainda não terminei. - minha raiva só aumentava. - Eu trabalho desde os cinco anos de idade com cinema, eu já fiz filmes com Sean Penn e Robert De Niro. Eu fui a primeira e única escolha para carregar a porra de uma série milionária nas costas e a diretora disse que o filme não seria feito se eu não aceitasse. O nome de quem foi indicado para melhor atriz coadjuvante no Golden Globe desse ano?

- O seu...

- E quem levou a porra do prêmio para casa?

- Você...

- E quem foi injustamente deixada de lado do Oscar porque o papel era polêmico demais mesmo todos os críticos internacionais dizendo que não haveria escolha melhor para o prêmio?

- Você...

- Então, coloque uma coisa em sua cabeça gigante: eu sou uma atriz de verdade enquanto você abre a boca para dizer meia dúzia de falas e acha que está atuando. Portanto, eu sou a pessoa que mais tem o direito de sair todas as noites e encher a cara de bebida porque não estou nesse mundo a passeio. Eu sou uma estrela de verdade, Angarano. Diga isso para o mundo escutar.

- Você é uma estrela de verdade, Kristen. - ele murmurou em redenção, mas sua falta de personalidade só me enojou mais ainda e eu o empurrei para longe.

Eu poderia o ter estapeado por ter feito uma piada com minha imagem, mas minha surra de palavras e verdades valeu muito mais que um soco naquela cara estranha. Meu ego se recompôs ao ver o olhar de espanto dele enquanto as frases jorravam de minha boca, mas eu não pararia até alcançar minha meta: colocar na cabeça de mais um imbecil no mundo que eu faria história por meu trabalho, não por minha vida pessoal. Um dia as pessoas não se importariam com quem eu estava transado e iriam olhar apenas para que filme eu estava lançando.

Mas enquanto isso eu teria que surrar mais algumas pessoas dignas de pena pelo caminho. Ossos do ofício.

Minha noite morreu com aquele encontro miserável. Eu aceitava ser usada por um ex-namorado louco, ser criticada por meus amigos, mas meu sangue fervia quando alguém mexia com minha profissão. Fale o que quiser de mim, porém, tenha cuidado quando tocar no assunto “carreira” porque eu não deixei minha pacata vida em Nashville e me joguei nessa selva insana chamada Hollywood só para ter status como celebridade festeira. Eu iria construir meu nome no mundo do cinema, eu iria ser lembrada como uma das mais jovens atrizes a levar prêmios importantes, como a melhor de minha geração. Eu não seria passageira como muita gente desejava.

Nem vi Ashley me gritando quando passei como um flash por onde ela estava conversando com alguém que eu não reconheci no momento, mas eu precisava sair dali, precisava me trancar em meu quarto e adormecer tentando não sonhar mais uma vez que eu caia de um penhasco por causa de uma perseguição de fotógrafos.

Mas seria impossível não sonhar com isso quando eu deixei a boate e me deparei com a multidão a minha esperada. Os flashes pipocaram em questão de segundos e a gritaria deu início. Eu não conseguia distinguir os pedidos de sorriso, as questões sobre minha noite e nem queria. Queria ser surda para não escutar as grosserias contra mim, ser cega para não saber com convicção que minha imagem estava sendo distorcida pelas lentes. Na verdade, queria ser invisível e só precisar aparecer para executar meu trabalho assim eu não teria metade dos meus problemas.

- Seu carro está virando a esquina, senhorita. Mas irá demorar um pouco para o manobrista fazer a volta no quarteirão. - um dos manobristas me disse quando eu o entreguei o bilhete para pegar meu carro.

Eu não tinha tempo para esperar enquanto a carnificina já tinha começado. Em dez minutos parada na porta da boate eu já tinha garantido dez fotos no Pop Sugar, dois comentários maldosos no Perez Hilton e um destaque na home do Just Jared. E tudo que eu queria era ir para casa em paz e poder colocar um ponto final na confusão que foi minha noite e ainda estava sendo. Eu precisava sair dali, nem que para isso precisasse cometer alguma burrice.

- Eu não posso esperar. - falei pegando a chave em sua mão e o deixando para trás.

- Senhorita! - o homem me gritou, talvez tentando me alertar do perigo que eu estava correndo, mas era tarde.

Naquele momento eu já estava me enfiando no meio da multidão e sendo engolida pelas feras.


***

¹ Framboesa de Ouro: prêmio dos piores do ano, geralmente divulgado dias antes do Oscar.
² Entourage: grupo de pessoas que seguem ou ajudam um artista. Pode incluir RP, segurança, maquiador, stylist e etc.

4 - I know you’re outside banging but I won’t let you in


I Like it Rought

Bati a porta com força e tentei respirar fundo dezenas de vezes antes de ligar o carro para deixar aquela rua vazia. Eu precisava dirigir o mais rápido possível para longe dali, ficar a quilômetros de distância de Jackson e de seu vício que me destruía mais do que a ele. Nada além de minha culpa mais uma noite terminar daquela forma e eu ter lágrimas inundando meus olhos, mas eu não conseguia me livrar do sofrimento fácil que ele me proporcionava.

Era como se nos momentos em que eu estava gritando com ele e sentindo meu coração despedaçado, eu finalmente me sentisse viva no meio daquele mar morto de pessoas artificiais ao meu redor. Sentir dor, ódio e desespero me traziam uma sensação de vivacidade que a “Cidade dos Anjos” estava me roubando a cada ano que eu passava sob seus holofotes, mas aquela não era a forma mais saudável de viver. Eu não poderia continuar deixando que ele me causasse taquicardia e corroesse meu estômago com a úlcera nervosa que eu tinha após anos de estresse com imprensa e com amores mal resolvidos.

Esmurrei o botão do som para preencher aquele silêncio agonizante que meu motor silencioso só piorava. Não sabia qual CD estava no ponto ou qual estação de rádio estava sintonizada, só escutei a gritaria e as distorções de uma guitarra tão nervosa quanto minha mente.

“Get away from the drugs you’re taking, get away from the man that’s stilling your life…"

Nossa! Como não poderia ser mais apropriado do que Velvet Revolver tocando “Dirty Little Thing” naquele exato momento em que eu me sentia uma coisinha podre sem significado algum? Era a porra do destino brincando mais uma vez comigo e eu esmurrei o botão outra vez para o silêncio me martirizar. Era melhor do que palavras exatas mostrando como eu só estava fudendo minha vida mais ainda.

Foi então que eu lembrei o motivo que me levou a odiar Jackson e prometer a mim mesma que não iria mais afundar por causa dele. Desde que pisei em seu apartamento naquela noite eu apaguei de minha mente a última noite que nós tivemos e o que ele fez comigo para me deixar aterrorizada de uma forma que me fez abandonar de vez o homem que eu amava.

As lágrimas ardiam com mais violência contra minha pele agora que a lembrança se tornava mais clara em minha mente...

FLASHBACK

Meus pés descalços escorregavam contra o carpete do meu quarto enquanto eu corria em direção ao banheiro, mas fui impedida por uma mão segurando meu cabelo e o puxando para me fazer parar.

- Me solta, seu idiota. - gritei tentando me desvencilhar do aperto, mas era impossível.

- Não, sua vadia egoísta. - Jackson gritou me atirando contra minha cama bagunçada, ainda com resquícios dos minutos de prazer que nós tivemos antes de tudo se transformar em um inferno mais uma vez.

Eu ofegava enquanto o observava se aproximar de mim. Sua narina esquerda estava sangrando, mas não era uma quantidade de sangue que indicasse que ele pudesse estar machucado ou algo parecido. Era apenas o sangue mínimo que deixou a ferida já aberta causada por uma quantidade excessiva de pó nos últimos três dias.

Breaking Dawn já havia terminado de ser filmado e, como ele me prometeu, nós tiraríamos um mês de férias para aproveitar sem flashes de paparazzis nossa relação, mas Jackson colocou tudo a perder quando me pediu para ficar um final de semana inteiro trancado em meu apartamento antes da nossa viajem paras as Ilhas Gregas.

O que deveria ser um final de semana romântico se transformou no inferno ao vivo na terra a partir do momento que ele depositou quase meio quilo de pó sobre a bancada da cozinha e separou a primeira parte para ser consumida. Ele dizia estar limpo há uma semana, mas eu desacreditei rapidamente em suas palavras quando o vi cheirar sem ânsia, como um velho hábito. Hábito que não tinha morrido e só ganhava forças com as horas que ele perdeu cheirando, bebendo e fumando antes de lembrar que eu existia.

Sem força alguma, não lutei quando ele me agarrou e me obrigou a transar com ele. Senti-me uma vagabunda frígida em sua mão enquanto o escutava gemer de prazer e nada no meu corpo me informava que eu pudesse ter aquela sensação também. Não, eu era um ser inanimado que ficava na posição que ele queria e servia apenas como orifícios de fácil alcance no caso de ele precisar descarregar um pouco o frenesi que o pó lhe causava.

O único minuto de lucidez que ele teve ocorreu no terceiro dia, quando eu estava chorando na varanda de meu apartamento e Jackson percebeu que algo estava errado. Ele escutou meu pedido desesperado para que ele parasse com o pó e percebesse que eu estava sofrendo por causa dele. Mais uma frase falsa saiu de seus lábios e outra vez eu o escutei prometer que não iria mais cheirar, que iria ser um homem melhor para mim.

No começo daquela noite ele me amou como há tempo não fazia, ele esperou por mim, ele soube me fazer uma mulher feliz e ridiculamente mais apaixonada por ele quando as lágrimas de alívio inundaram meus olhos no ápice de nosso prazer. Eu confie no seu pedido de desculpa feito enquanto eu estava quase adormecendo em seus braços suados e tinha meu corpo embalado por sua respiração, mas ao acordar com uma sensação de vazio no meio da noite tudo voltou ao normal.

Vestida com meu robe de seda, segui até a sala e encontrei Jackson debruçado sobre a mesa de centro com o nariz enterrado em um novo monte de pó. Ele fungava a droga com vontade e só percebeu minha presença quando levantou a cabeça para esfregar o nariz já muito vermelho. Minhas lágrimas descendo com força por minhas bochechas o indicavam que eu estava machucada outra vez, mas ele parecia não se importar.

- Você prometeu. - eu murmurei sem força. - Por que, Jackson?

- Porque eu sou um viciado sem volta, Kristen. - ele gritou ficando em pé e me encarando com ira nos olhos.

- Você precisa de ajuda profissional porque eu não vou agüentar mais te ver dessa forma.

- Você não precisa agüentar nada disso. Não é você que se droga a cada minuto com medo de uma abstinência doentia.

- Eu sofro por te ver se destruindo dessa forma, seu imbecil. - gritei empurrando seu peito e ele cambaleou sem equilíbrio pelo nível de drogado que já estava. - Você não ainda percebeu isso?

- Você sofre porque você quer. - ele retrucou esfregando o nariz com mais força por causa daquela coceira que o pó causava em sua mucosa nasal ferida e um filete de sangue desceu por sua narina esquerda. - Ninguém te pediu para ficar assistindo. Ninguém te pediu para ficar comigo mesmo sabendo de meus problemas.

- Você transformou meu apartamento em um antro e você quer que eu feche os olhos toda a vez que você cheira? - gritei pouco me importando com os vizinhos de baixo.

- Eu não posso parar e você sabe disso. - ele retrucou na mesma gritaria.

- Eu não suporto mais te ver assim, Jackson. Eu não suporto mais isso.

Fiz a pior escolha daquela noite quando passei minhas mãos rapidamente para limpar o pó restante sobre a mesa de centro e algumas gramas de cocaína se perderam no tapete felpudo da sala. O desespero tomou conta de Jackson quando ele me viu fazer aquilo e a próxima coisa que eu senti foi meu corpo sendo empurrado com força contra o sofá enquanto ele tentava salvar um grão que fosse. Foi nesse momento que eu saí correndo para me trancar no banheiro como fazia todas as vezes que tinha medo daquele homem.

- Eu vou te matar, sua vagabunda. - ele disse entre os dentes quando segurou meu pescoço com as duas mãos e o apertou sem força, pois estava drogado demais. - Eu perdi quase mil dólares por sua causa.

Consegui me soltar de suas mãos e o empurrá-lo, conseguindo finalmente me trancar no banheiro e me isolar do que estava acontecendo no exterior. Os murros contra a madeira da porta chegavam a me ensurdecer, mas eu tapava meus ouvidos enquanto escorregava em pranto para o chão. Minha vida estava destruída naquela noite e eu finalmente tinha encontrado forças para não desejá-lo nunca mais.

- Abra essa porta, Kristen. - Jackson gritou esmurrando a porta com mais força.

- Vá embora! - gritei de volta e minha garganta ardia com a força que eu usei no meu grito.

Ele ainda insistiu um pouco, mas logo um barulho estranho veio do exterior do banheiro e eu o escutei gritar com alguém, mas não tive coragem para abrir a porta. Permaneci no chão me balançando para frente e para trás como uma garota assustada.

- Kristen, pode abrir a porta. - escutei a voz de Mimi depois de um tempo.

Levantei a mão para destrancar a porta e me afastei dela para Mimi poder entrar no banheiro e me tirar do chão enquanto eu soluçava e apertava seu braço em busca de apoio. Ele me depositou na cama e tentou soltar meus braços ao redor de seu pescoço, mas eu estava assustada demais para ficar sozinha naquela noite.

- Ele foi embora, não se preocupe. - Mimi disse tentando me acalmar.

- Por favor, Mimi. Fique comigo. - pedi o puxando para sentar na cama e abraçar seu corpo grande.

De alguma forma eu consegui encontrar paz nos braços enormes de meu segurança particular e adormeci enquanto ele acariciava meu cabelo e dizia que tudo ficaria bem. Na manhã seguinte - quando acordei sozinha e encontrei Nikki, Ashley e Mimi conversando sobre a noite anterior - eu tomei a decisão de minha vida; Jackson jamais conseguiria me infernizar daquela forma. Mudei meu telefone, celular, senha do código de segurança de meu apartamento e de carro só para ele não ter uma forma de me encontrar e tudo recomeçar.

Eu teria dois meses para me desintoxicar daquele veneno que ele deixou incrustado em meu coração, mas quando um encontro entre nós dois fosse obrigado a acontecer, eu iria cair mais uma vez, mas dessa vez teria força para deixá-lo antes de tudo ficar pior como naquela última noite juntos.

FIM DO FLAHSBACK

Funguei alto para afastar as novas lágrimas e parei nos sinal vermelho em uma rua mais movimentada. Ainda eram onze horas da noite e eu não queria ir para meu apartamento vazio, encher minha cara com vodka para tentar afogar minha dor que já sabia nadar melhor que o Michael Pelphs. Eu precisava encontrar alguma forma de me distrair ou até mesmo de desabafar tudo que eu passei em três horas ao lado daquele homem-veneno e só havia uma pessoa no mundo capaz de me aturar nesses momentos de desespero.

- Ashley, por favor, não me negue esse pedido de uma amiga despedaçada. - falei quando ela atendeu ao celular.

- O que aconteceu, Kristen? - ela perguntou respirando fundo.

- Jackson, ele aconteceu. - expliquei tentando não chorar.

- Ok, eu vou escutar suas lamentações mais uma vez. O código de segurança é o mesmo.

- Obrigada, Ash. Eu não saberia sobreviver sem você.

- Eu sei disso.

Não esperei nem o sinal ficar verde para arrancar com meu carro e dirigir para o outro lado da cidade, onde em um apartamento charmoso eu poderia chorar no colo de minha melhor amiga sem medo de uma câmera flagrar um momento de fraqueza vindo de uma atriz de Hollywood.


***